Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) registraram no dia 23 de abril o nascimento do primeiro porco clonado do Brasil e da América Latina. O animal nasceu no Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, em Piracicaba (SP). Pesando 1,7 kg após uma gestação de quatro meses, o filhote consolida quase seis anos de tentativas do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR).

Costumo acompanhar sistemas legados bancários onde encontrar uma peça de reposição para um mainframe antigo exige vasculhar o mercado mundial de hardware. A medicina, no entanto, lida com um nível de compatibilidade muito mais rígido. No Sistema Único de Saúde (SUS), os órgãos representam 94% da demanda na fila de transplantes. O corpo humano descarta rapidamente qualquer peça que não possua a exata assinatura biológica do hospedeiro. Para resolver esse erro crônico de integração, os cientistas decidiram alterar o código-fonte genético dos suínos.

Refatorando o DNA com a ferramenta CRISPR

Ernesto Goulart, biólogo do Instituto de Biociências da USP, explica que o projeto cria animais para doarem órgãos como rim, córnea, coração e pele a pacientes humanos. A transferência de órgãos entre espécies diferentes recebe o nome de xenotransplante. Se você colocar um coração de porco comum em um homem, o sistema imunológico identifica um invasor e ataca o tecido em poucas horas.

Para desbugar o problema de rejeição, a equipe usou a técnica CRISPR/Cas9. Imagine o CRISPR como um atalho de teclado localizar e substituir aplicado ao código genético. Os pesquisadores localizaram e desativaram três genes suínos que ativam as defesas humanas. Em seguida, injetaram sete genes humanos nas células do animal. Eles aplicaram um patch de compatibilidade diretamente no embrião.

Os suínos continuam provando sua utilidade muito além da agricultura tradicional. Se você acha estranho usar partes de porco em humanos, vale lembrar que a arquitetura cognitiva desses animais também guarda surpresas. Já abordamos aqui no portal como testes mostraram que porcos conseguem entender e jogar videogame, aprendendo a usar o focinho para mover um joystick.

Linha de montagem clínica

O XenoBR atua desde 2022 com verba da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Criar um animal modificado exige instalações esterilizadas para que os vírus naturais do porco não migrem para o paciente humano receptor. A USP inaugurou seu laboratório de grau clínico em 2024, e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) entregou o seu em 2025.

Com o nascimento em Piracicaba, o Brasil alinha suas pesquisas ao cronograma internacional. Hospitais nos Estados Unidos conduzem os primeiros testes clínicos em humanos utilizando rins e corações suínos modificados, e a China prepara o início de sua fase de testes operacionais para este ano.

Assim como os códigos COBOL escritos nos anos 1960 continuam processando as transferências financeiras diárias via remendos e modernizações de software, a ciência ajusta estruturas biológicas antigas de outras espécies para prolongar a vida humana. Hoje, mais de 60 mil brasileiros aguardam por um órgão na fila de doação, e o uso de matrizes animais surge como a rota primária para suprir essa demanda na próxima década.