Na sexta-feira, 27 de abril de 2026, as ações da Intel subiram mais de 24% em Wall Street, fechando a US$ 82,57 e elevando o valor de mercado da empresa para mais de US$ 416 bilhões. O número quebra um teto histórico que a companhia mantinha desde a bolha das pontocom no ano 2000. O gatilho para a alta foi um balanço do primeiro trimestre com vendas de US$ 13,58 bilhões, superando as expectativas em US$ 1 bilhão. A ironia da situação é que essa explosão financeira acontece no exato momento em que a Intel enviou um alerta vermelho para a China: não há processadores suficientes para entregar, e a fila de espera para alguns modelos já chega a seis meses.
Hardware invisível e a volta por cima da CPU
Acompanho infraestruturas críticas há mais de 15 anos. Do mainframe processando folhas de pagamento na Avenida Paulista aos data centers que liquidam cartões de crédito em Londres e Nova York, o hardware sempre dita o ritmo do mercado financeiro. Até pouco tempo atrás, o consenso geral era que o avanço da Inteligência Artificial dependeria exclusivamente das GPUs (Unidades de Processamento Gráfico), os chips superpoderosos da Nvidia. Mas a Intel provou que as velhas e boas CPUs (Unidades Centrais de Processamento) ainda são quem paga a conta de luz.
Mark Lipacis, analista da Evercore, detalhou a investidores como o uso dos processadores mudou dentro dos data centers. Antes, a proporção padrão era de uma CPU para cada oito GPUs. Agora, com a popularização da IA agêntica, a proporção inverteu e saltou para até dez CPUs para cada GPU. No processo de IA agêntica, o software não apenas responde perguntas, mas toma decisões e executa tarefas sequenciais de forma autônoma. A GPU treina os modelos matemáticos, mas a CPU é quem faz o trabalho lógico e burocrático de manter o sistema operando em tempo real. Ou, como costumamos dizer nos porões dos servidores bancários: a GPU ganha o prêmio de inovação, mas é a CPU quem leva o lixo para fora no fim do expediente.
O gargalo do processo 18A
A reestruturação interna conduzida pelo CEO Lip-Bu Tan entregou resultados contábeis, mas a fábrica não está conseguindo acompanhar o volume de pedidos. A Intel avisou oficialmente os grandes provedores de serviços em nuvem na China que a falta de CPUs para servidores atingirá o pico no segundo e no terceiro trimestres de 2026. A raiz do atraso está no chamado processo 18A.
No jargão da fabricação de chips, 18A refere-se à arquitetura de 1,8 nanômetros. Quanto menor essa medida, mais transistores cabem na mesma peça de silício, entregando velocidade com menor consumo de energia. A Intel enfrentou problemas para escalar a taxa de rendimento dessa linha de montagem. O rendimento é a porcentagem de chips perfeitos que saem da fábrica. Se a taxa é baixa, a empresa perde material e atrasa as entregas.
O diretor financeiro da Intel, David Zinsner, admitiu aos acionistas que a empresa precisou retirar especificações técnicas de alguns produtos ou suspender ordens de compra para tentar equilibrar os estoques, que permaneceram apertados durante todo o primeiro trimestre. Empresas chinesas que não podem paralisar seus data centers por seis meses já começaram a migrar pedidos para a AMD.
A Caixa de Ferramentas
A lição prática desse movimento bilionário é que a inteligência artificial não roda em uma nuvem abstrata; ela exige silício físico, infraestrutura e muita eletricidade. Analistas da Evercore projetam que a Intel pode capturar um terço do mercado de CPUs para IA até 2030, o que representaria a venda de até 74 milhões de unidades por ano. Para os gestores de TI e empreendedores que dependem de infraestrutura própria ou terceirizada, a diretriz imediata é antecipar contratos. O gargalo reportado no mercado chinês afeta as entregas globais de servidores, e os fabricantes apontam que os prazos só devem voltar à normalidade no início de 2027.