O CEO na cadeira do Estado
Donald Trump assinou nesta quarta-feira uma ordem executiva que nomeia 13 executivos de empresas como Meta, Google, NVIDIA e Oracle para o Conselho de Consultores de Ciência e Tecnologia do Presidente (PCAST). Enquanto a Casa Branca formaliza bilionários como conselheiros de Estado para ditar as regras da inteligência artificial, do outro lado do mundo, Mark Zuckerberg testa os limites do controle autoritário. A Meta encontrou caminhos não oficiais para que seu modelo de linguagem Llama opere dentro do mercado chinês e drible a rigidez de Pequim.
Até que ponto a política molda a tecnologia, e onde começa o inverso? Acompanho a regulação algorítmica há bastante tempo e o que vemos agora altera a dinâmica de poder. Não estamos falando de lobistas nos corredores de Washington. Estamos falando dos próprios donos do código que sentam nas cadeiras onde as leis são redigidas.
Desbugando o PCAST e o Grande Firewall
O PCAST existe desde 1933, criado originalmente por Franklin D. Roosevelt. Mas a versão de 2026 troca acadêmicos tradicionais por CEOs da linha de frente. A lista inclui Jensen Huang (NVIDIA), Lisa Su (AMD), Sergey Brin (Google) e Larry Ellison (Oracle). Michael Kratsios e David Sacks, que comandam o conselho, afirmam publicamente que o objetivo é garantir a liderança americana em tecnologias de ponta.
Imagine a sala de reuniões. De um lado, concorrentes diretos na venda de chips. Do outro, arquitetos de plataformas que disputam a atenção de bilhões de usuários diários. Agora, eles têm a caneta para recomendar limites de segurança nacional e políticas de imigração para desenvolvedores.
Simultaneamente, a China mantém o Grande Firewall, um sistema de censura governamental que bloqueia sites ocidentais e reprova modelos de IA que não alinham suas respostas às diretrizes do Partido Comunista. A resposta da Meta a isso não foi diplomática, foi técnica. A empresa distribui o Llama em formato de código aberto. Isso significa que qualquer desenvolvedor no mundo consegue baixar as instruções matemáticas do modelo e rodá-lo em servidores próprios.
Pesquisadores e startups chinesas começaram a acessar o Llama por meio de repositórios não oficiais e adaptaram a IA americana para operar dentro da infraestrutura local de servidores clandestinos. A tática força uma presença em um mercado fechado. O alerta da NVIDIA sobre a independência asiática ganha uma camada nova de disputa quando o código ocidental vaza pelas rachaduras da censura de Pequim.
Mas qual o preço real dessa expansão? Se uma ferramenta americana processa dados de cidadãos chineses através de servidores paralelos, quem audita a privacidade dessa informação? O Estado ou a corporação invisível?
Sua Caixa de Ferramentas Digital
As fronteiras geográficas perderam a capacidade de barrar o avanço de códigos matemáticos. Para quem desenvolve software ou gerencia projetos em empresas menores, a principal lição prática é monitorar a mudança na fonte de regulação. A política oficial que guiará o uso da IA nos próximos anos sairá diretamente de quem vende a infraestrutura na qual você trabalha.
A distribuição de modelos open-source se consolidou como uma arma para perfurar barreiras comerciais severas. A Casa Branca divulgou a lista dos nomeados na quarta-feira, mas o conselho de tecnologia do governo ainda não marcou a data da sua primeira reunião oficial.