Quando pensamos em inteligência artificial, a mente vai direto para os algoritmos, os grandes modelos de linguagem e as interfaces de conversação. Mas há uma história paralela, menos visível e igualmente decisiva, que está sendo escrita em fábricas de semicondutores na Áustria e nos Estados Unidos. Nos primeiros dias de agosto de 2026, duas empresas de nicho — a Onsemi e a ams OSRAM — divulgaram resultados trimestrais que não apenas superaram expectativas, mas também pintaram um mapa claro de para onde o mercado de hardware está migrando: de um lado, chips de gerenciamento de energia que alimentam os gigantescos data centers de IA; de outro, microdispositivos ópticos que projetarão a próxima geração de realidade aumentada diretamente em nossas retinas. Entender essa dualidade é como olhar para as fundações de um prédio que ainda está sendo construído — a estrutura vai definir o que será possível fazer andar por cima dela.

A Onsemi e a aposta silenciosa nos data centers de IA

A Onsemi, especialista em semicondutores de potência e sensoriamento, reportou uma receita de US$ 1,604 bilhão no segundo trimestre de 2026, um crescimento de 9% em relação ao mesmo período do ano anterior. O número, em linha com as expectativas do mercado, escondeu uma joia: a previsão para o terceiro trimestre ficou entre US$ 1,65 bilhão e US$ 1,75 bilhão, com o ponto médio superando a estimativa consenso dos analistas, que era de US$ 1,67 bilhão. O motor desse otimismo tem nome e sobrenome: data centers de IA. Segundo o CEO Hassane El-Khoury, "o data center de IA continua sendo nosso negócio de crescimento mais rápido e agora esperamos que a receita mais que dobre em 2026". Isso não é um detalhe de operação; é uma declaração de estratégia. A Onsemi não fabrica as GPUs da Nvidia ou os TPUs do Google, mas fornece os componentes menos glamourosos, porém absolutamente vitais: os chips que gerenciam a conversão e distribuição de energia elétrica dentro dos racks de servidores, garantindo que essas máquinas famintas por energia operem com eficiência e sem superaquecimento.

Para dimensionar a seriedade desse movimento, basta olhar para as outras linhas do balanço. O fluxo de caixa operacional da empresa aumentou em 150%, e o fluxo de caixa livre quadruplicou em relação ao ano anterior, atingindo US$ 425,4 milhões. Em paralelo, a empresa adotou uma postura agressiva de consolidação. Em junho, anunciou a aquisição da Synaptics em uma transação de US$ 7 bilhões em ações, buscando expandir seu portfólio em interfaces homem-máquina e processamento de borda. Um mês depois, em julho, vendeu duas fábricas como parte de sua estratégia "Fab Right", que visa otimizar sua rede de manufatura. O dinheiro não está apenas entrando; está sendo reinvestido cirurgicamente nas áreas que a empresa considera o futuro. Para o profissional de infraestrutura de TI que projeta ou gerencia data centers, isso significa que a cadeia de suprimentos de componentes críticos de energia está se reorganizando para atender a uma demanda que, até pouco tempo, era vista como especulativa.

A ams OSRAM e a corrida pela produção em massa dos óculos de realidade aumentada

Se a Onsemi cuida do "coração" dos data centers, a ams OSRAM está focada nos "olhos" do futuro da computação. A empresa austríaca, especializada em sensores e soluções ópticas, também divulgou resultados sólidos: receita de €805 milhões (cerca de US$ 926,31 milhões) no segundo trimestre, com uma margem EBITDA ajustada de 16,9%, situada no limite superior de sua própria previsão. O número que chamou a atenção dos analistas, porém, veio da sua divisão de semicondutores, que cresceu 13% em relação ao ano anterior em taxas de câmbio constantes, acumulando mais de €2,5 bilhões em design-wins (vitórias de design com clientes) apenas no primeiro semestre de 2026.

O verdadeiro milestone, contudo, está nos bastidores da pesquisa e desenvolvimento. A empresa anunciou que alcançou marcos críticos rumo à produção em massa de seus motores de luz RGB baseados em arrays de microLED. Para desbugar esse jargão: pense em um projetor de cinema, mas em escala minúscula, do tamanho de uma unha, capaz de desenhar imagens diretamente no vidro de um óculo inteligente. Esses arrays são compostos por minúsculos diodos emissores de luz que "disparam" imagens para a lente. A relevância disso é que a realidade aumentada de verdade — aquela que se funde com o mundo real de forma crível — depende de displays que sejam brilhantes o suficiente para serem vistos sob luz do dia, pequenos o suficiente para caber em uma armação de óculos comum e eficientes o suficiente para não drenar uma bateria em minutos. A ams OSRAM está, segundo seu CEO Aldo Kamper, preparando essa tecnologia para a escala industrial, o que é um passo fundamental para que empresas como a Apple, a Meta ou a Samsung possam finalmente lançar produtos de RA para o consumidor final em volumes significativos.

Fotônica de IA: quando a luz substitui os fios dentro dos data centers

Uma conexão menos óbvia, mas igualmente fascinante, une os dois mundos de atuação dessas empresas. A ams OSRAM, ao mesmo tempo em que avança em RA, também lançou o desenvolvimento de arrays de microfotodiodos destinados a arquiteturas de interconexão óptica para data centers de IA, descritas como "slow & wide". O que isso significa na prática? Dentro de um data center, os servidores precisam trocar quantidades massivas de dados entre si para treinar um modelo de IA. Hoje, isso é feito predominantemente com fios de cobre. A fotônica de silício propõe usar pulsos de luz para transmitir esses dados, o que é potencialmente mais rápido, mais eficiente energeticamente e gera menos calor. A ams OSRAM está, portanto, entrando nessa corrida desenvolvendo os componentes fotodetectores — os "olhos" que leem os sinais de luz — para essas novas infraestruturas. É um eco direto dos investimentos do governo dos EUA em silício fotônico para data centers, que já viemos acompanhando, e mostra como a demanda por IA está criando oportunidades em nichos da física que antes eram considerados acadêmicos.

O que tudo isso significa para quem constrói o digital

Para o profissional de tecnologia que não trabalha diretamente com design de chips, a tentação é olhar para esses resultados e pensar: "São números de empresas de semicondutores, o que isso tem a ver comigo?" A resposta é: tudo. Quando a Onsemi afirma que sua receita de data center de IA vai mais que dobrar em um ano, ela está validando a premissa de que a infraestrutura para treinar e rodar modelos de IA está sendo construída em escala industrial, e não em laboratório. Quando a ams OSRAM atinge marcos em microLEDs para RA, ela está dando um sinal concreto de que a interface do futuro — aquela que projetará informações sobre o mundo real — está mais perta de sair do protótipo. Para o desenvolvedor de aplicações, isso significa que as APIs e SDKs para desenvolver conteúdo de RA para esses novos dispositivos logo estarão disponíveis. Para o gestor de infraestrutura, significa que os próximos data centers que ele vai contratar terão uma "pegada" energética e uma arquitetura de interconexão diferentes, possivelmente fotônicas. Ignorar a camada de hardware é como tentar otimizar um software sem saber em qual processador ele vai rodar — você pode até ter um resultado, mas não será o melhor possível.

Os números da Onsemi e da ams OSRAM de agosto de 2026 não contam uma história de boom tecnológico passageiro. Eles narram o estágio de "maturidade industrial" de duas frentes da computação avançada. De um lado, a IA deixou de ser um experimento e se tornou um negócio de bilhões que exige uma cadeia de suprimentos robusta e específica de componentes de potência. Do outro, a realidade aumentada deixou de ser uma promessa de conferências e se tornou um problema de engenharia de produção em massa. Para quem acompanha o setor, o conselho é simples: comece a olhar para os nomes menos badalados nos releases de hardware. A inovação de 2026 não está apenas na última atualização de um modelo de linguagem, mas também nos chips que vão alimentá-lo e nas luzes que vão projetá-lo no mundo real. Afinal, como um antigo ditado de quem trabalha com sistemas legados reza: "Ninguém vê o COBOL, mas todo mundo usa o banco que ele processa." No caso da IA e da RA, a máxima se repete — ninguém vai ver os chips da Onsemi ou da ams OSRAM, mas todo mundo vai usar o futuro que eles estão construindo.