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title: "Epic aposta em velocidade de IA para saúde em sua conferência UGM"
author: "Lígia Lemos Maia"
date: "2026-08-21 08:30:00-03"
category: "Inteligência Artificial & Dados"
url: "http://desbugados.scale.press/portal/desbugados/post/2026/08/21/epic-aposta-em-velocidade-de-ia-para-saude-em-sua-conferencia-ugm/md"
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## Resumo
- A Epic Systems revelou mais de 100 funcionalidades de IA para seu prontuário eletrônico durante o UGM 2024.
- Até o fim de 2025, a empresa planeja usar IA generativa para simplificar jargões médicos e automatizar pedidos de exames e receitas.
- A IA já é usada para transcrição médica em 186 organizações e para rascunhos de mensagens em 150 organizações.
- A ferramenta Look-Alikes do Cosmos compara sintomas em 226 milhões de registros e está ativa em 65 sites.
- A Payor Platform foi anunciada para otimizar autorizações prévias e administrar negações de seguros.
- A Epic também explora o envio direto de claims para reduzir a dependência de intermediários no faturamento.
- Os anúncios incluem a expansão do Garden Plot, dados genômicos no Cosnome e parcerias com dispositivos médicos.

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O bug que a **Epic Systems** tenta resolver não está apenas no consultório, mas também na papelada, na linguagem difícil e nos intervalos silenciosos que separam uma decisão médica de sua execução. Durante o **UGM 2024**, encontro anual de usuários da empresa, a CEO Judy Faulkner revelou o desenvolvimento de mais de 100 funcionalidades de inteligência artificial para o prontuário eletrônico de saúde. A apresentação, detalhada pela [CNBC](https://www.cnbc.com/2024/08/21/epic-systems-ugm-2024-ai-tools-in-mychart-cosmos-.html), colocou no mesmo horizonte ferramentas para pacientes, médicos e áreas administrativas, com lançamentos planejados até o fim de 2025. A pergunta que fica é menos se a IA chegará à rotina médica e mais quais partes dessa rotina serão redesenhadas primeiro.

## Da linguagem médica à burocracia dos seguros

Essa escala anunciada ganha forma em tarefas que parecem pequenas quando observadas isoladamente, mas que ocupam tempo dentro do atendimento. Até o fim de **2025**, a Epic planeja lançar recursos de IA generativa, isto é, sistemas capazes de produzir textos ou respostas a partir de instruções, para traduzir jargões médicos em linguagem simples para pacientes. A empresa também pretende automatizar o preenchimento de pedidos de exames e receitas, reduzindo a necessidade de transformar repetidamente uma decisão clínica em campos de formulário. Na área administrativa, a proposta inclui apelações contra negativas de seguros e autorizações prévias, que são as aprovações exigidas antes de determinados procedimentos ou serviços. A velocidade, nesse caso, nasce da retirada de atritos entre etapas que já existem.

Enquanto essas funções ainda aparecem como planos de lançamento, outras já têm uso confirmado em organizações de saúde. A Epic informou que a inteligência artificial é usada para **transcrição médica em 186 organizações** e para criar rascunhos de mensagens destinadas a pacientes em 150 organizações. Transcrição médica significa converter a fala do atendimento em texto que pode ser revisado e incorporado ao trabalho clínico; já o rascunho de mensagem prepara uma primeira versão da comunicação, sem transformar automaticamente o texto em decisão médica. No mesmo encontro, a empresa anunciou o **Teamwork**, ferramenta voltada ao agendamento de equipes. O movimento aproxima a IA de uma função menos cinematográfica e mais cotidiana: organizar o fluxo que permite ao cuidado acontecer.

## Quando o prontuário passa a comparar histórias

Esse uso operacional se conecta a uma camada de dados mais ampla. No banco **Cosmos**, a ferramenta chamada “Look-Alikes” auxilia na identificação de doenças raras ao comparar sintomas em **226 milhões de registros**; segundo a cobertura do evento, ela estava ativa em 65 sites. A expressão “Look-Alikes” pode ser entendida como uma busca por casos semelhantes: em vez de olhar para uma ficha como se ela estivesse sozinha no mundo, o sistema procura padrões próximos em uma grande coleção de registros. A [Digital Health Wire](https://digitalhealthwire.com/storytime-at-epic-ugm-2024/) descreveu essa aplicação como parte da integração da IA ao fluxo clínico. O ganho possível não está em oferecer uma resposta mágica, mas em tornar visíveis relações que poderiam permanecer escondidas entre sintomas pouco comuns.

Se a comparação de sintomas amplia a memória disponível para o atendimento, uma demonstração apresentada para o **MyChart** leva essa lógica até o período posterior à consulta ou à cirurgia. O agente de IA mostrado pela empresa pode realizar guias de recuperação pós-operatória e comparar os movimentos do paciente com normas populacionais. Aqui, “agente” significa um software desenhado para executar uma sequência de tarefas orientadas por objetivo, em vez de apenas responder a uma pergunta isolada. O material também menciona, entre as funcionalidades futuras, a **análise de feridas por imagem**. A ideia desloca parte da observação para o ambiente digital, mas conserva uma questão que a ficção científica costuma fazer antes da tecnologia: quem interpreta uma mudança e quem assume a responsabilidade por agir diante dela?

## A parte invisível da velocidade: autorizações e cobranças

Essa tentativa de encurtar o caminho também aparece na relação entre prestadores de saúde e pagadores. A Epic anunciou a **Payor Platform**, disponível para todos os clientes de sistemas de saúde, com o objetivo de otimizar autorizações prévias e a gestão de negações. Na prática, a plataforma mira o momento em que um atendimento ou procedimento precisa ser justificado, autorizado ou contestado perante uma operadora. Uma negativa de seguro não é apenas uma mensagem administrativa: ela pode interromper o percurso de um cuidado e obrigar equipes a reunir documentos, argumentos e informações já registradas em outros pontos do sistema. Ao levar a IA para essa etapa, a empresa tenta acelerar uma negociação que costuma acontecer longe dos olhos do paciente, embora possa alterar diretamente sua experiência.

Além da plataforma para pagadores, a Epic também explora o envio direto de **claims**, nome dado às cobranças encaminhadas aos seguros, com a possibilidade de eliminar intermediários. Esses intermediários são conhecidos como clearinghouses, empresas ou estruturas que recebem, verificam e encaminham informações de faturamento entre prestadores e pagadores. O material apresentado no UGM descreve essa possibilidade como uma forma de descentralizar o processamento das cobranças. Ainda se trata de uma exploração anunciada, não de uma confirmação de que todos os fluxos serão substituídos imediatamente. Mesmo assim, a direção é clara: a empresa não está olhando somente para o texto produzido pela IA, mas para a arquitetura das transações que sustenta o atendimento. Quando uma ferramenta passa a organizar também esse caminho, eficiência e governança deixam de ser assuntos separados.

## Uma plataforma que cresce para além da tela

Essa expansão não ficou limitada às funções inteligentes exibidas no atendimento. A Epic anunciou o crescimento do **Garden Plot**, uma instância do sistema voltada a grupos médicos menores, para mais especialidades. A expressão “instância” descreve uma versão organizada de um sistema para determinado tipo de operação, e sua ampliação indica que a empresa pretende levar essa estrutura a equipes com necessidades diferentes das grandes instituições. O anúncio importa porque a adoção de uma ferramenta não depende apenas de sua capacidade técnica, mas também de ela caber no tamanho, na rotina e na especialidade de quem a utiliza. Ao ampliar o Garden Plot, a Epic trabalha na distribuição da própria plataforma, conectando a aposta em IA a grupos que não aparecem necessariamente como grandes centros hospitalares.

Em outra frente de dados, o **Cosmos** passará a armazenar informações genômicas no **Cosnome**. Dados genômicos são informações relacionadas ao material genético de uma pessoa, e sua inclusão acrescenta uma nova camada ao conjunto de registros usado pela plataforma. O anúncio não descreve, nas fontes consultadas, um diagnóstico específico produzido a partir dessa mudança, mas mostra a intenção de reunir tipos diferentes de informação em uma mesma estrutura de saúde. Essa aproximação entre histórico clínico e dados genômicos reabre a pergunta sobre como sistemas digitais organizam aquilo que sabem sobre uma pessoa. Quanto mais amplo o arquivo consultado, maior também precisa ser a clareza sobre a finalidade de cada uso.

A empresa também apresentou a primeira parceria de sua iniciativa **Aura** para dispositivos médicos, realizada com a **iRythm**, responsável pelo dispositivo Zio. A proposta coloca equipamentos que acompanham sinais do corpo em contato mais próximo com o sistema de informações de saúde. O material do evento descreve essa como a primeira parceria Aura para dispositivos médicos e registra que existem planos de incluir monitoramento contínuo de glicose. Não é apenas uma questão de adicionar mais um aparelho à rotina: quando dados produzidos fora do consultório entram no fluxo digital, eles podem alterar o momento em que uma equipe observa o paciente e decide o que merece atenção. A ponte entre dispositivo e prontuário, portanto, também é uma ponte entre presença física e acompanhamento remoto.

Os anúncios completam essa ampliação com planos para o **monitoramento contínuo de glicose** e com novos módulos para banco de sangue e plataformas destinadas a registros comunitários. O monitoramento contínuo acompanha a glicose ao longo do tempo, enquanto um registro comunitário organiza informações de saúde relacionadas a uma população ou território específico. As fontes não apresentam, para essas iniciativas, um cronograma detalhado de implantação nem resultados de uso. O que está documentado é a direção da empresa: conectar a inteligência aplicada ao atendimento com estruturas que cuidam de recursos, comunidades e informações produzidas em diferentes pontos. A pergunta ética muda de escala nesse momento, porque já não envolve apenas o que um algoritmo sugere a um médico, mas também quais dados uma instituição escolhe reunir e tornar disponíveis.

## O que a aposta em velocidade realmente muda

Quando se observam as frentes anunciadas em conjunto, a velocidade defendida pela Epic não significa simplesmente responder mais depressa a uma solicitação. Ela significa reduzir o intervalo entre fala e registro, entre sintoma e comparação, entre pedido e autorização, entre procedimento e cobrança. Algumas ferramentas já aparecem em organizações de saúde, enquanto outras permanecem planejadas ou em exploração, e essa diferença precisa ser preservada para que a promessa não seja confundida com disponibilidade imediata. O leitor pode enxergar a mudança como uma nova camada de automação sobre o trabalho médico, mas a automação não apaga as escolhas humanas: ela desloca essas escolhas para o desenho dos fluxos, para a revisão dos textos e para a decisão sobre quais dados merecem confiança.

Por fim, o próximo passo anunciado tem prazo: até o fim de **2025**, a Epic planeja colocar em circulação ferramentas generativas para simplificar a comunicação com pacientes e automatizar o preenchimento de pedidos e receitas, ao mesmo tempo em que desenvolve recursos para tarefas administrativas. Até lá, os dados apresentados no UGM 2024 oferecem uma régua concreta para acompanhar a transição: transcrição em 186 organizações, rascunhos de mensagens em 150 e a ferramenta de casos semelhantes ativa em 65 sites. Essa é a caixa de ferramentas para entender a notícia sem deslumbramento nem alarmismo: separar o que já está em uso, o que foi anunciado como futuro e o que ainda está sendo explorado. Afinal, na saúde, acelerar um processo só faz sentido quando também fica claro quem revisa, quem decide e quem responde.