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title: "Travis Kalanick detona capital de risco e diz que apenas 1% dos VCs são úteis"
author: "Gustavo Ramos O. Klein"
date: "2026-08-22 08:00:00-03"
category: "Negócios & Inovação"
url: "http://desbugados.scale.press/portal/desbugados/post/2026/08/22/travis-kalanick-detona-capital-de-risco-e-diz-que-apenas-1-dos-vcs-sao-uteis/md"
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## Resumo
- Travis Kalanick afirmou em entrevista ao podcast de David Senra que apenas 1% dos investidores de venture capital são realmente úteis.
- O empresário disse que a maioria dos VCs não consegue cumprir sequer o requisito de não causar danos e comparou fundadores a mestres de xadrez.
- A Atoms captou US$ 1,7 bilhão em uma rodada liderada pela Andreessen Horowitz, a16z.
- Ben Horowitz, cofundador da a16z, entrou para o conselho da Atoms após a rodada.
- O acordo combinou equity e dívida, teve participação da Uber e não revelou o valuation final da empresa.
- A Atoms reúne negócios ligados à automação industrial, incluindo operações associadas à CloudKitchens e à Pronto.
- Kalanick também reconheceu que seu estilo de gestão agressivo na Uber foi problemático.

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Em entrevista ao podcast de David Senra, o fundador da Uber, Travis Kalanick, criticou a indústria de venture capital, afirmando que apenas 1% dos investidores são realmente úteis. Kalanick, que recentemente levantou US$ 1,7 bilhão para sua empresa de robótica, Atoms, mantém uma visão crítica sobre VCs. A declaração chama atenção porque combina uma rejeição pública à maioria dos investidores com uma rodada bilionária liderada por uma das gestoras mais conhecidas do setor. Para desbugar essa aparente contradição, é preciso olhar para a diferença entre simplesmente receber dinheiro e construir uma relação de longo prazo envolvendo participação acionária, dívida e assento no conselho. É nessa ponte entre capital e governança que a fala do empresário ganha peso.

## Por que a crítica de Kalanick chama atenção

Essa afirmação não foi apresentada como uma avaliação moderada da indústria. Na entrevista, Kalanick disse que a maioria dos investidores não consegue cumprir sequer o requisito de “não causar danos” (do no harm). Para ele, o fundador vive a operação com uma intensidade que o investidor nem sempre acompanha. A metáfora usada foi direta: ele comparou fundadores a “mestres de xadrez” e VCs a “entusiastas” que aparecem esporadicamente. O argumento coloca em discussão o tipo de valor que um fundo entrega depois do aporte, quando o dinheiro deixa de ser a novidade e as decisões passam a exigir conhecimento da operação, leitura de riscos e participação constante. Em outras palavras, a pergunta não é apenas quem financia, mas quem consegue dialogar com a empresa sem atrapalhar sua partida.

A autocrítica de Kalanick também aparece quando ele revisita o próprio comportamento como executivo. Na mesma conversa, Kalanick admitiu que seu estilo de gestão agressivo na Uber foi um problema. Ele associou esse comportamento à experiência de escassez vivida em sua startup anterior, a Red Swoosh, e reconheceu que “correu perto da linha” em muitas situações. Essa admissão introduz uma segunda camada na discussão, porque o empresário não se coloca somente como fundador incompreendido por investidores, mas também reconhece que decisões e métodos de liderança podem produzir conflitos reais. A experiência acumulada na **Uber**, portanto, aparece como parte da explicação para sua desconfiança dos VCs e para a forma como enxerga a relação entre quem constrói a empresa e quem participa de sua supervisão.

## O paradoxo entre a fala e a rodada da Atoms

Enquanto critica a utilidade da maioria dos VCs, Kalanick está à frente de uma empresa que recebeu uma das maiores injeções de capital mencionadas nas fontes. Em julho de 2026, a Atoms captou US$ 1,7 bilhão em uma rodada de investimentos liderada pela Andreessen Horowitz, conhecida pela sigla a16z. O aporte não foi apenas uma transferência de recursos para uma startup de software, já que a empresa reúne uma proposta voltada à automação industrial baseada em inteligência artificial e robótica. A diferença ajuda a entender a posição do empresário: sua crítica não é contra qualquer forma de capital externo, mas contra investidores que, na visão dele, não entregam utilidade proporcional à influência que podem exercer. O dinheiro pode ser uma ponte, mas a qualidade da travessia depende de quem participa dela.

A rodada também colocou Ben Horowitz, cofundador da a16z, no conselho da Atoms. Conselho de administração é o grupo responsável por acompanhar decisões estratégicas e exercer supervisão sobre a empresa, e não apenas uma reunião simbólica entre financiadores. Na prática, a entrada de Horowitz cria um canal direto entre o investidor líder e a companhia comandada por Kalanick. Esse detalhe torna a história mais interessante: o empresário afirma que poucos VCs são úteis, mas aceitou uma estrutura na qual um dos principais nomes do fundo responsável pelo aporte passa a participar formalmente da governança. A relação deixa de ser uma conversa ocasional sobre dinheiro e passa a envolver decisões, responsabilidades e expectativas compartilhadas entre fundador e investidor.

## Como o financiamento foi estruturado

A escala da operação não veio apenas de uma única modalidade financeira. O acordo inclui uma combinação de capital, chamado de equity, e dívida. Equity significa que o investidor coloca dinheiro em troca de uma participação na empresa, enquanto a dívida precisa ser financiada e posteriormente paga conforme as condições negociadas. Essa distinção é útil porque mostra que os US$ 1,7 bilhão não devem ser interpretados como uma única fonte de recursos com o mesmo custo ou o mesmo efeito sobre o controle da Atoms. A Uber participou como investidora de capital, embora tenha demitido Kalanick em 2017, e instituições bancárias entraram como parceiras de dívida. A empresa não divulgou o valuation final após o aporte, ou seja, o valor atribuído à companhia depois da rodada.

A participação da Uber acrescenta uma camada histórica à negociação. A empresa que fez parte da trajetória mais conhecida de Kalanick e que o demitiu em 2017 passou a investir na Atoms, aproximando novamente as duas pontas por meio do capital. Isso não apaga o conflito anterior nem permite concluir que a relação entre as partes tenha sido totalmente reconstruída, mas mostra como as conexões financeiras podem criar novas formas de diálogo depois de uma ruptura executiva. Para o fundador, o aporte amplia os recursos disponíveis para sua nova empresa; para o investidor, a participação cria exposição ao projeto e às decisões futuras da Atoms. O ponto concreto é que a crítica aos VCs convive com uma operação que reúne diferentes tipos de financiamento e antigos vínculos profissionais.

## De software a operações físicas

Esse arranjo financeiro ganha sentido quando se observa o que a Atoms pretende reunir. Após a captação, a Atoms passou a concentrar negócios de Kalanick sob uma estrutura única voltada à automação industrial baseada em inteligência artificial e robótica. Um desses negócios é a CloudKitchens, operação descrita como parte do conjunto de atividades físicas controladas pelo grupo. A empresa não está sendo apresentada apenas como uma desenvolvedora de ferramentas digitais que vende licenças para outras companhias, mas como uma estrutura que busca participar diretamente de operações no mundo físico. Uma reportagem interna do [Desbugados sobre a Atoms e a reunião de executivos ligados à Uber](https://desbugados.com.br/post/2026/08/06/atoms-reune-ex-uber-para-robotica-o-que-isso-muda-no-futuro-dos-robos) ajuda a contextualizar essa mudança de foco, que aproxima inteligência artificial de atividades concretas.

A consolidação também envolve a Pronto, associada à automação de mineração, enquanto a estratégia alcança ainda o transporte. A proposta da Atoms é controlar operações físicas, e não somente vender o software ou os robôs usados por outras empresas. Essa escolha muda a unidade de valor do negócio: em vez de oferecer uma ferramenta isolada e esperar que o cliente faça toda a integração, a empresa pretende colocar a automação dentro da própria operação. Para quem acompanha tecnologia, essa diferença importa porque inteligência artificial e robótica deixam de ser apenas componentes técnicos e passam a ser organizados como partes de uma atividade econômica completa. O debate sobre os investidores, então, se conecta diretamente à necessidade de capital, supervisão e experiência para administrar máquinas, infraestrutura e serviços no mesmo projeto.

## O que a disputa ensina sobre capital e governança

A estratégia da Atoms permite enxergar a crítica de Kalanick por outro ângulo. Quando ele diz que apenas 1% dos VCs são úteis, está questionando a qualidade da participação desses investidores depois que a rodada é concluída. Um fundo pode fornecer capital, mas sua presença também pode alterar a governança, influenciar prioridades e criar novas exigências para o fundador. No caso da Atoms, a liderança da a16z e a entrada de Ben Horowitz no conselho mostram que o investidor não ficou restrito a uma posição distante. O mesmo acordo que oferece recursos para uma aposta em automação também estabelece uma relação institucional. A questão colocada por Kalanick é se essa relação melhora a execução da empresa ou se acrescenta ruído à tomada de decisão.

Essa arquitetura ajuda o leitor a separar três perguntas que costumam aparecer misturadas quando uma startup anuncia uma captação. Quanto dinheiro entrou? Qual parte veio como participação e qual parte veio como dívida? E quem passou a ter influência formal sobre o rumo da empresa? No caso da Atoms, as fontes respondem às três: houve uma captação de US$ 1,7 bilhão, o acordo combinou equity e dívida, e Ben Horowitz entrou no conselho. A resposta sobre a utilidade real dos investidores, porém, ainda depende da relação construída a partir daí. O capital é mensurável no anúncio; a contribuição para a operação precisa ser observada nas decisões e na execução. É nesse intervalo que a crítica de Kalanick deixa de ser apenas uma frase provocativa e vira uma régua para avaliar contratos.

## Como interpretar a mensagem de Kalanick

Para fundadores, a leitura prática não é concluir que todo investidor de venture capital deve ser evitado. A mensagem é mais específica: antes de aceitar dinheiro, o empreendedor precisa entender qual será o papel do investidor, que tipo de conhecimento ele realmente oferece e como sua participação afetará a governança. A fala de Kalanick sugere uma comparação entre o aporte financeiro e a utilidade operacional, mas não fornece uma lista de critérios universais nem identifica quais 1% dos investidores seriam úteis. Por isso, a decisão precisa começar pela documentação da rodada e pelas responsabilidades previstas para cada parte. Quem será ouvido? Em quais decisões? Com que frequência? E quais mecanismos existem para resolver divergências? Essas perguntas transformam uma promessa vaga de parceria em um diálogo verificável.

Por isso, o dado mais concreto para acompanhar agora é a combinação entre a crítica pública de Kalanick e a estrutura que ele aceitou para a Atoms. A empresa captou US$ 1,7 bilhão, reuniu capital e dívida, recebeu a participação da Uber e colocou um dos fundadores da a16z em seu conselho. Ao mesmo tempo, Kalanick reconheceu problemas no estilo de gestão que adotou na Uber e manteve a avaliação de que a maioria dos VCs não consegue sequer evitar danos. A caixa de ferramentas para entender o caso está nessa tensão: não basta contar o tamanho do cheque, é preciso observar quem constrói a ponte, quem participa da governança e se a relação ajuda a Atoms a transformar inteligência artificial e robótica em operações físicas de fato.