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title: "Brasil IBM e Europa aceleram projetos diferentes na corrida quântica"
author: "Gabriela P. Torres"
date: "2026-08-27 07:30:00-03"
category: "Tecnologia & Desenvolvimento"
url: "http://desbugados.scale.press/portal/desbugados/post/2026/08/27/brasil-ibm-e-europa-aceleram-projetos-diferentes-na-corrida-quantica/md"
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## Resumo
- Pesquisadores do IFSC-USP, com apoio da FAPESP, aprisionaram íons individuais de estrôncio em uma armadilha de Paul construída no Brasil.
- O experimento usa campos elétricos oscilantes a 18 MHz e uma câmara de ultra-alto vácuo mantida à temperatura ambiente.
- A equipe brasileira planeja avançar, nos próximos meses, para operações de superposição e emaranhamento.
- A IBM concluiu em 26 de agosto de 2026 a aquisição da HRL Laboratories, sem divulgar o valor da transação.
- A operação incorpora à IBM competências em qubits de spin de silício, sensores quânticos, materiais, criogenia e eletrônica de controle.
- A Sparrow Quantum recebeu € 300 mil na Fase 1 do Quantum Grand Challenge do EuroHPC para o projeto EU-SCALE.
- As 13 startups selecionadas receberam € 3,87 milhões no total e poderão solicitar até € 30 milhões cada na Fase 2, caso cumpram os marcos exigidos.

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Em **26 de agosto de 2026**, a computação quântica ganhou três movimentos independentes, cada um atacando uma parte diferente do problema: pesquisa experimental no Brasil, aquisição de tecnologia pela indústria e financiamento para uma startup europeia. A **IBM** concluiu a aquisição da HRL Laboratories para incorporar competências em hardware quântico; no IFSC-USP, pesquisadores conseguiram aprisionar íons individuais de estrôncio; e a dinamarquesa Sparrow Quantum foi selecionada para a primeira fase de um programa do EuroHPC. A ligação entre os anúncios não é uma operação conjunta, mas a disputa por caminhos capazes de tornar as máquinas quânticas mais úteis. Para separar entrega concreta de promessa corporativa, é preciso observar o que cada iniciativa já realizou, o que ainda depende de testes e qual é o próximo prazo anunciado.

## Brasil começa pelo controle do íon

Na frente brasileira, o resultado aconteceu no **IFSC-USP**, onde uma equipe liderada por **Amilson Rogelso Fritsch** construiu uma armadilha de Paul e conseguiu aprisionar íons de estrôncio. Uma armadilha de Paul é um dispositivo que usa campos elétricos para manter partículas carregadas em uma região controlada, em vez de deixá-las escapar. O experimento levou **18 meses** e recebeu apoio da FAPESP por meio do Programa QuTIa, segundo a [Agência FAPESP](https://agencia.fapesp.br/brasil-constroi-sua-primeira-armadilha-de-ions-frios-para-computacao-quantica/59058). O ponto técnico não é apenas ter construído o equipamento, mas demonstrar que ele consegue reter partículas individuais de um elemento escolhido para a pesquisa quântica. A partir daí, a pergunta deixa de ser se o íon pode ser confinado e passa a ser se ele pode ser controlado como informação.

O método brasileiro opera com **campos elétricos oscilantes a 18 MHz**, usados para confinar os íons individuais dentro de uma câmara de ultra-alto vácuo mantida à temperatura ambiente. O vácuo reduz a interferência de partículas externas, enquanto a temperatura ambiente diferencia essa montagem de abordagens que dependem de resfriamento extremo, conforme os dados divulgados sobre o experimento. Na linguagem da computação quântica, um **qubit** é a unidade usada para representar informação quântica; neste caso, o íon aprisionado é o candidato a desempenhar esse papel. Se a partícula fica estável o suficiente para ser manipulada, então o laboratório passa a ter uma plataforma experimental; se apenas fica presa, ainda não há processamento quântico demonstrado. Essa distinção é o detalhe que impede o anúncio de ser lido como uma máquina pronta.

O próximo passo da equipe está previsto para os **próximos meses** e envolve a manipulação quântica dos íons, com operações de superposição e emaranhamento. Superposição descreve a possibilidade de trabalhar com estados quânticos combinados, enquanto emaranhamento é uma correlação entre estados que pode ser usada no processamento de informações. O material divulgado não afirma que essas operações já foram realizadas no equipamento; afirma que elas estão no plano de continuidade depois do aprisionamento. A sequência, portanto, é verificável: primeiro manter o íon confinado, depois aplicar operações sobre ele e, só então, avaliar seu uso em processamento. O prazo anunciado coloca o laboratório diante de um teste experimental específico, não de uma promessa aberta sem critério de acompanhamento.

## IBM amplia o conjunto de hardware quântico

No movimento corporativo, a **IBM** concluiu em 26 de agosto de 2026 a aquisição da **HRL Laboratories**, em uma transação cujo valor financeiro não foi divulgado. A operação acrescenta à IBM a experiência da HRL em qubits de spin de silício, uma abordagem de hardware diferente daquela que aparece como eixo principal de seu roadmap divulgado. Aqui, aquisição concluída significa transferência empresarial efetivada, mas não significa que um novo computador quântico já esteja disponível para clientes. A utilidade da operação depende da integração entre o conhecimento adquirido e a infraestrutura que a IBM já possui. A diferença é relevante: o fato comprovado é a compra e a incorporação de competências, enquanto qualquer ganho futuro de desempenho ainda precisa ser demonstrado.

Além dos **qubits de spin de silício**, a HRL contribui com conhecimento em sensores quânticos e materiais. Esses dois campos podem ser entendidos como partes do trabalho necessário para construir e operar dispositivos quânticos: sensores tratam da medição de fenômenos com recursos quânticos, enquanto materiais dizem respeito aos elementos usados na fabricação e no funcionamento do hardware. A fonte descreve a integração dessas capacidades à infraestrutura da IBM, e não o lançamento imediato de um produto específico. Se a integração funcionar, a empresa passa a reunir competências complementares dentro de sua estratégia; senão, a aquisição continuará sendo apenas uma decisão de portfólio. O comunicado, por si só, confirma a combinação de capacidades, não o resultado técnico que virá depois.

A operação também inclui conhecimento em **criogenia** e eletrônica de controle. Criogenia é o conjunto de técnicas usado para trabalhar com temperaturas muito baixas, enquanto a eletrônica de controle coordena os sinais aplicados ao sistema quântico. São áreas menos visíveis para quem acompanha apenas a contagem de qubits, mas a descrição da aquisição mostra que a IBM está incorporando componentes de suporte ao hardware, e não somente uma nova modalidade de qubit. Essa leitura muda a pergunta central: em vez de perguntar apenas quantos qubits uma máquina terá, é preciso observar quais recursos permitem controlar, medir e manter esses qubits. O anúncio da IBM fornece a resposta sobre as áreas adquiridas, mas ainda não apresenta uma medição pública do efeito dessa integração.

O horizonte declarado pela IBM aparece em dois computadores do seu **roadmap quântico**: o IBM Quantum Starling tem meta para **2029**, enquanto o Blue Jay está previsto para meados da década de 2030. Um roadmap é um plano de desenvolvimento com metas futuras, não um calendário que substitui demonstrações técnicas. Por isso, a aquisição da HRL deve ser lida como uma decisão para reforçar a base de hardware que antecede esses prazos. Se as competências de spin de silício, controle e criogenia forem integradas conforme o planejado, a compra poderá apoiar as metas anunciadas; se não forem, os nomes e as datas continuarão sendo apenas objetivos. O dado sólido neste momento é a aquisição concluída e a existência dessas metas, não a entrega antecipada dos computadores.

A continuidade das relações da HRL com a **Boeing**, um de seus antigos proprietários, também faz parte da transação. Essas parcerias permanecerão voltadas a aplicações e tecnologia avançada, segundo a informação divulgada pela IBM. Na prática, isso separa duas coisas que comunicados corporativos costumam misturar: a HRL muda de controle empresarial, mas não abandona automaticamente os vínculos de pesquisa e aplicação que já mantinha. O fato não prova que uma aplicação quântica específica da Boeing será lançada, porque nenhum produto ou prazo desse tipo foi informado. Ele mostra apenas que a aquisição foi desenhada para incorporar a HRL à IBM sem eliminar essa relação anterior.

A mesma lógica se aplica à parceria mantida com a **General Motors**, também citada entre os antigos proprietários da HRL. A colaboração continuará direcionada a aplicações e tecnologia avançada, enquanto a IBM incorpora a expertise da empresa adquirida à própria infraestrutura. Essa combinação produz uma configuração de responsabilidades bem definida: a IBM passa a controlar a HRL, e a HRL conserva relações com empresas que já participavam de seu trabalho. Não há, nas informações disponíveis, indicação de que a General Motors tenha adquirido a IBM ou de que a parceria seja um contrato de lançamento comercial. O dado verificável é a continuidade da colaboração, o que ajuda a dimensionar a operação sem transformar uma aquisição em anúncio de produto.

## Europa financia a etapa de planejamento

Na Europa, a iniciativa tem natureza diferente. A **Sparrow Quantum**, startup dinamarquesa, foi selecionada pelo EuroHPC Joint Undertaking para receber **€ 300 mil** na Fase 1 do Quantum Grand Challenge. A empresa é a única dinamarquesa entre as 13 selecionadas nessa etapa, e o dinheiro não aparece descrito como pagamento por um computador quântico pronto. Trata-se de financiamento inicial para um projeto definido, o EU-SCALE, que terá de transformar uma proposta tecnológica em um plano técnico e financeiro. A diferença em relação à IBM é direta: a IBM comprou uma empresa para ampliar suas competências, enquanto a Sparrow recebeu recursos para estruturar o caminho de integração de sua tecnologia.

O projeto **EU-SCALE** pretende desenvolver um roadmap técnico e financeiro para integrar chips de geração determinística de fótons da Sparrow a sistemas de computação quântica fotônica de grande escala. Fótons determinísticos são partículas de luz geradas de maneira previsível pelo chip, enquanto a computação fotônica usa a luz como parte do processamento quântico. O projeto também precisa ser compatível com a infraestrutura europeia de **computação de alto desempenho**, conhecida pela sigla HPC, que designa sistemas clássicos capazes de executar cálculos em grande escala. Portanto, o financiamento não descreve apenas a fabricação de um componente: ele cobre o planejamento da integração entre o chip e uma infraestrutura maior. O teste seguinte será saber se esse roteiro técnico e financeiro supera os marcos previstos na primeira fase.

O programa não selecionou apenas a Sparrow. O conselho do EuroHPC aprovou **13 startups europeias** para a Fase 1, conforme a Decisão nº 31/2026, com um total cumulativo de **€ 3,87 milhões**. Esse valor coletivo é diferente dos € 300 mil destinados à Sparrow, porque soma os financiamentos das empresas escolhidas. A distinção evita um erro comum de leitura: o montante europeu não é um cheque individual para cada participante, nem significa que todas receberão a mesma quantia. O que está confirmado é a seleção administrativa de 13 empresas e a distribuição cumulativa informada para essa etapa. A próxima camada da regra está condicionada ao desempenho técnico e empresarial, e não apenas à aprovação inicial.

Depois da Fase 1, as empresas que superarem os **marcos técnicos e de negócios** poderão se qualificar para solicitar até € 30 milhões cada em financiamento de dívida de risco, ou venture debt, junto ao Banco Europeu de Investimento na Fase 2. Dívida de risco é capital que precisa ser contratado como financiamento, e não uma concessão automática ou uma participação acionária garantida. A seleção inicial funciona, portanto, como pré-requisito administrativo para uma solicitação futura. Se os marcos forem atingidos, cada empresa poderá pedir acesso a esse limite; se não forem, a possibilidade prevista não se converte em recurso disponível. O anúncio europeu já informa o mecanismo e o teto, mas deixa o desembolso posterior dependente dos resultados da primeira fase.

## Três iniciativas, três testes diferentes

Quando os anúncios são colocados lado a lado, a diferença de estágio fica clara. O grupo do IFSC-USP demonstrou o **aprisionamento de íons** e planeja avançar para operações quânticas; a IBM concluiu uma **aquisição empresarial** para ampliar seu conjunto de competências; e a Sparrow entrou em uma fase de financiamento voltada à elaboração de um roteiro técnico e financeiro. Não existe uma cadeia informada pelas fontes em que o experimento brasileiro alimente a aquisição da IBM ou em que o dinheiro europeu financie qualquer uma das outras duas iniciativas. São movimentos independentes, conectados pelo mesmo problema geral: construir máquinas e componentes capazes de executar processamento quântico de forma controlada.

Essa separação também ajuda a entender o que cada número realmente mede. Os **18 meses** do projeto brasileiro medem o tempo de desenvolvimento do experimento; os € 300 mil da Sparrow medem o financiamento da primeira fase; e as metas de 2029 e meados da década de 2030 da IBM medem prazos declarados para computadores do roadmap. Nenhum desses números pode ser convertido automaticamente em desempenho, escala ou disponibilidade comercial. A métrica correta depende do tipo de iniciativa: no laboratório, o próximo indicador é a manipulação de superposição e emaranhamento; na IBM, é a integração das capacidades adquiridas; na Europa, é o cumprimento dos marcos que podem levar à Fase 2. Essa é a forma mais segura de acompanhar a corrida sem tratar anúncio como resultado final.

## O que acompanhar daqui para frente

Para acompanhar os próximos capítulos, o leitor pode usar três perguntas objetivas. No Brasil, a equipe conseguirá sair do aprisionamento e realizar a manipulação quântica anunciada para os próximos meses? Na IBM, a incorporação da HRL produzirá avanços verificáveis antes das metas do Starling para 2029 e do Blue Jay para meados da década de 2030? Na Europa, a Sparrow e as demais empresas atingirão os marcos técnicos e de negócios exigidos para solicitar o financiamento de dívida de risco? As fontes já fornecem os prazos e as condições, mas não antecipam as respostas. O acompanhamento responsável começa justamente por não preencher essas lacunas com promessas que ainda não foram demonstradas.

A caixa de ferramentas para ler esses anúncios é simples: separar **experimento**, aquisição e financiamento; identificar o que foi concluído; registrar o que foi apenas planejado; e cobrar o próximo teste anunciado. No IFSC-USP, o fato concluído é o aprisionamento de íons de estrôncio, enquanto a manipulação quântica ficou para os próximos meses. Na IBM, a aquisição foi concluída, mas Starling e Blue Jay continuam sendo metas futuras. No programa europeu, os € 3,87 milhões foram aprovados para a Fase 1, e o acesso a até € 30 milhões por empresa depende de marcos posteriores. Assim, a corrida quântica pode ser acompanhada por evidências específicas, sem confundir pesquisa, compra e crédito como se fossem a mesma entrega.