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title: "Banco Central Europeu recebe pressão para adotar blockchain no sistema financeiro"
author: "Ignácio Afonso"
date: "2026-08-29 06:45:00-03"
category: "Tecnologia & Desenvolvimento"
url: "http://desbugados.scale.press/portal/desbugados/post/2026/08/29/banco-central-europeu-recebe-pressao-para-adotar-blockchain-no-sistema-financeiro/md"
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## Resumo
- Isabel Schnabel defendeu, em 28 de agosto de 2026, que bancos centrais adotem blockchain para manter a relevância da moeda oficial na liquidação financeira.
- A proposta do BCE é voltada exclusivamente às finanças de atacado e não cria uma criptomoeda para consumidores ou investidores.
- Schnabel apresentou três caminhos: emissão direta de reservas tokenizadas, conexão dos sistemas atuais a plataformas programáveis e intermediação privada por conta omnibus.
- O Projeto Pontes deve conectar registros distribuídos aos serviços TARGET do Eurosistema, com lançamento inicial previsto para setembro de 2026.
- Os slides do projeto mencionam liquidação via TARGET2 ou DLT, além de futuras funções como operação 24 horas por dia e programabilidade descentralizada.
- O Projeto Appia estuda marcos regulatórios e arquiteturais para ativos tokenizados.

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Em **28 de agosto de 2026**, no Simpósio de Política Econômica de Jackson Hole, **Isabel Schnabel**, membro do conselho executivo do Banco Central Europeu (BCE), defendeu que os bancos centrais adotem blockchain para preservar o papel da moeda oficial no sistema financeiro. Blockchain, neste caso, é uma tecnologia de registro distribuído que permite registrar e movimentar ativos em redes digitais programáveis. O ponto central da proposta é preparar a liquidação de operações tokenizadas, nas quais ativos financeiros passam a existir como representações digitais, sem deixar que alternativas privadas, como stablecoins, ocupem o espaço do dinheiro emitido pelo banco central. A seguir, a ideia é desbugada em seus componentes técnicos, institucionais e práticos.

## Por que o BCE quer colocar o dinheiro do banco central on-chain

A defesa de Schnabel começa por uma disputa silenciosa sobre qual ativo será usado para concluir as operações financeiras do futuro. Em uma liquidação, a instituição que vende um ativo recebe o dinheiro correspondente, encerrando a obrigação entre as partes. Para a executiva, esse encerramento precisa continuar podendo ocorrer em **dinheiro do banco central**, considerado o ativo final de liquidação dentro da proposta apresentada em Jackson Hole. A expressão on-chain significa levar essa etapa para uma infraestrutura baseada em registro distribuído, em vez de deixar a operação depender exclusivamente dos trilhos tradicionais. O assunto ganha peso quando títulos e outros ativos passam a ser tokenizados, pois a forma de pagamento precisa acompanhar a nova forma de registro.

Essa preocupação também explica a referência às **stablecoins**, alternativas privadas mencionadas por Schnabel como parte da transformação financeira. A proposta apresentada pelo BCE procura preservar a presença da moeda oficial em operações nas quais plataformas digitais e contratos programáveis organizam a transferência de ativos. Contratos programáveis são regras que podem executar etapas de uma transação quando determinadas condições são atendidas, o que aproxima a negociação e o pagamento dentro da mesma infraestrutura. O desenho defendido pela executiva, portanto, trata da posição do banco central no atacado, segmento formado por operações entre instituições financeiras, e não de uma carteira digital para o público em geral. Essa delimitação ajuda a separar a discussão de uma moeda digital de varejo.

## O que significa adotar blockchain no mercado de atacado

Para traduzir a proposta, é preciso separar blockchain do uso popular associado a criptomoedas. No discurso, Schnabel trata de uma infraestrutura para registrar reservas e liquidar operações institucionais, enquanto a palavra blockchain descreve o tipo de tecnologia de registro distribuído que pode sustentar esse processo. As **reservas tokenizadas** seriam unidades de dinheiro do banco central representadas em um ambiente digital compatível com ativos tokenizados. A vantagem buscada está na possibilidade de fazer o pagamento dentro da mesma lógica programável usada para registrar o ativo, reduzindo a distância entre negociação, entrega e liquidação. O objetivo declarado é modernizar a implementação da política monetária sem retirar da moeda do banco central sua função de referência nas transações entre instituições.

Essa escolha tecnológica ainda depende da arquitetura que será adotada na Europa. Schnabel sugeriu a criação de um **registro europeu único** ou a interconexão de vários registros, permitindo que diferentes infraestruturas conversem entre si sem abandonar a referência comum do Eurosistema. Um registro distribuído é, em termos simples, uma base de dados compartilhada entre participantes autorizados, na qual as operações podem ser acompanhadas e validadas conforme as regras da rede. Durante a apresentação, a executiva citou o projeto sul-coreano **Hangang** como exemplo de iniciativa relacionada a esse tipo de organização. A referência mostra que a discussão não envolve apenas escolher uma ferramenta, mas decidir como diferentes camadas financeiras poderão operar juntas.

## Três caminhos para os bancos centrais entrarem na nova infraestrutura

A arquitetura defendida por Schnabel foi apresentada a partir de **três abordagens**. A primeira prevê a emissão direta de reservas tokenizadas pelo banco central, colocando o próprio dinheiro oficial dentro de uma plataforma programável. A segunda conecta os sistemas de pagamento já existentes a ambientes baseados em registro distribuído, por meio de uma ponte tecnológica. Essa ponte funciona como uma camada de comunicação entre infraestruturas com regras diferentes, permitindo que uma operação iniciada em uma rede alcance a outra. As duas alternativas preservam uma ligação direta entre o dinheiro oficial e a liquidação de ativos digitais, mas distribuem essa ligação de maneiras diferentes entre a infraestrutura nova e os sistemas que já estão em funcionamento.

O terceiro caminho usa intermediários privados por meio de uma **conta omnibus**, modelo em que as posições de vários participantes são reunidas em uma conta administrada por um intermediário. Schnabel avaliou que a emissão direta de reservas tokenizadas seria a forma mais eficaz de manter a moeda do banco central como ativo final de liquidação. A diferença entre as opções está no ponto em que o banco central aparece na operação: como emissor direto do dinheiro programável, como participante conectado aos sistemas existentes ou como instituição apoiada por uma estrutura privada de intermediação. Essa decisão terá efeito sobre a forma de organizar pagamentos, garantias e registros entre instituições financeiras, que é justamente onde o BCE concentra sua proposta.

## Pontes e registros distribuídos já estão na agenda do BCE

O caminho mais concreto citado nas fontes é o **Projeto Pontes**, iniciativa do BCE para conectar registros distribuídos aos serviços TARGET do Eurosistema. TARGET é o conjunto de serviços de pagamento usado pelo Eurosistema, e a ponte proposta procura aproximar essa infraestrutura de plataformas que trabalham com ativos tokenizados. O lançamento inicial do projeto está previsto para **setembro de 2026**, o que coloca a discussão sobre blockchain dentro de uma agenda de implementação, e não apenas no campo dos discursos. A iniciativa permite testar como uma rede distribuída pode conversar com os sistemas de pagamento existentes, mantendo a capacidade de liquidar operações institucionais em dinheiro do banco central.

Na apresentação usada por Schnabel, o Projeto Pontes combina uma solução de conexão com um **registro DLT do Eurosistema**. DLT é a sigla em inglês para tecnologia de registro distribuído, categoria que inclui diferentes formas de organizar e validar dados compartilhados. Os slides descrevem um modelo de liquidação dupla, com possibilidade de utilizar o TARGET2 ou o registro distribuído, e apontam melhorias futuras como disponibilidade **24 horas por dia, sete dias por semana** e programabilidade descentralizada. Na prática, o material apresenta uma transição em camadas: os serviços atuais continuam fazendo parte da estrutura, enquanto novas funções digitais são conectadas a eles. A ponte, portanto, é o mecanismo que liga a confiabilidade da infraestrutura existente à experimentação com registros programáveis.

## O alcance da proposta e o que fica fora dela

O alcance da proposta é delimitado pelo próprio mercado a que ela se dirige. O plano de Schnabel foca exclusivamente as **finanças de atacado**, nas quais bancos e outras instituições movimentam recursos, ativos e garantias entre si. Usuários de varejo não são o alvo dessa integração, e a proposta não cria uma criptomoeda para investidores. Essa distinção evita uma confusão comum: colocar reservas tokenizadas em uma infraestrutura institucional não equivale a lançar um novo dinheiro digital para uso cotidiano. O trabalho descrito pelo BCE está ligado à liquidação e ao gerenciamento de colaterais, isto é, dos ativos oferecidos como garantia em operações financeiras, mantendo a análise concentrada nas necessidades das instituições.

Enquanto o mercado de varejo fica fora do escopo, a parte institucional ganha uma camada tecnológica capaz de aproximar ativos digitais e dinheiro oficial. O Projeto Pontes aparece como a conexão operacional com os serviços TARGET, e o **Projeto Appia** estuda marcos regulatórios e arquiteturais para ativos tokenizados. Um marco regulatório define as regras aplicáveis, enquanto a arquitetura determina como os participantes, registros e serviços se relacionam. Essa divisão de tarefas mostra que o BCE precisa resolver duas perguntas ao mesmo tempo: como a infraestrutura deve funcionar e sob quais regras as instituições poderão utilizá-la. A tecnologia, sozinha, não encerra a discussão, porque o desenho do dinheiro digital também depende da forma de governança e da integração com os sistemas de pagamento.

## O próximo passo será testar a conexão com os sistemas atuais

O próximo passo indicado pelas fontes é o lançamento inicial do **Projeto Pontes em setembro de 2026**, com uma estrutura que combina registros distribuídos e os serviços de pagamento do Eurosistema. A iniciativa deverá servir como ponto de ligação entre o modelo tradicional de liquidação e as plataformas capazes de registrar ativos tokenizados. Ao mesmo tempo, o Projeto Appia seguirá associado ao estudo das regras e da arquitetura necessárias para esse tipo de ativo. A sequência é significativa porque coloca a modernização em uma ordem compreensível: primeiro, criar a conexão entre as infraestruturas; depois, amadurecer as condições técnicas e regulatórias para seu uso. É assim que uma tecnologia nova entra em uma instituição financeira que não pode simplesmente desligar seus sistemas antigos.

O argumento de Schnabel, apresentado no Simpósio de Jackson Hole, agora pode ser acompanhado por meio desses projetos e de suas escolhas de arquitetura. A emissão direta de reservas tokenizadas foi apontada por ela como a alternativa mais eficaz para manter a moeda do banco central no centro da liquidação, mas o BCE também considera pontes com os sistemas atuais e estruturas apoiadas por intermediários privados. Para o leitor, a chave é observar o que acontecerá no mercado institucional a partir de **setembro de 2026**: não uma criptomoeda para consumidores, e sim a tentativa de conectar a infraestrutura financeira existente a registros distribuídos, preservando o dinheiro oficial como referência das operações.