---
title: "Quase 90 governos abandonaram contratos com a Flock em agosto"
author: "Ignácio Afonso"
date: "2026-09-02 06:45:00-03"
category: "Segurança & Privacidade"
url: "http://desbugados.scale.press/portal/desbugados/post/2026/09/02/quase-90-governos-abandonaram-contratos-com-a-flock-em-agosto/md"
---

## Resumo
- Cerca de 90 administrações locais dos Estados Unidos cancelaram ou não renovaram contratos com a Flock em agosto de 2026.
- O número de cancelamentos foi quatro vezes maior que o registrado em julho, segundo dados do Secure Justice.
- Desde 2021, 214 governos municipais encerraram contratos com a empresa.
- As preocupações com privacidade e vigilância imigratória impulsionaram decisões recentes de várias localidades.
- Uma auditoria em Mountain View revelou que agências federais acessaram dados locais entre agosto e novembro de 2024.
- A Flock afirma que novos contratos superam os cancelamentos em uma proporção de 10 para 1.
- A empresa diz estar trabalhando em melhorias nos padrões de privacidade.

---

Cerca de **90 administrações locais dos Estados Unidos** cancelaram ou decidiram não renovar contratos com a Flock em agosto de 2026, segundo levantamento do grupo **Secure Justice**, sediado em Oakland. O número foi quatro vezes maior que o registrado em julho e levou a uma nova pergunta sobre o uso de leitores automáticos de placas por governos municipais. Desde 2021, **214 governos municipais** já encerraram contratos com a empresa. Para entender o que está por trás dessa sequência de decisões, é preciso olhar para a tecnologia, para a circulação dos dados e para os problemas de privacidade que transformaram um contrato local em uma discussão sobre vigilância.

## O salto de agosto começa com uma sigla

O levantamento trata de sistemas conhecidos pela sigla **ALPR**, abreviação em inglês para leitores automáticos de placas, equipamentos capazes de registrar placas de veículos para formar uma rede de informações usada por órgãos de segurança. A reportagem da [Ars Technica](https://arstechnica.com/tech-policy/2026/08/cities-terminate-flock-contracts-at-record-pace-in-august/) descreve a apuração do Secure Justice como uma contagem de jurisdições que encerraram contratos com a Flock apenas em agosto. A questão deixa de ser apenas a presença de uma câmera em uma rua, porque a rede depende da interconexão entre dados de polícias e do setor privado, ligando decisões locais a uma estrutura mais ampla de acesso às informações.

Esse salto ganhou uma dimensão mais clara quando o ritmo de cancelamentos chegou a uma média de **três localidades por dia** nos 30 dias analisados. As rescisões ocorreram em diferentes regiões dos Estados Unidos, com exemplos como **Lansing, em Michigan**, e **Pflugerville, no Texas**. A distribuição geográfica indica que a discussão não ficou concentrada em uma única prefeitura ou em uma única região do país, mas avançou entre administrações que decidiram abandonar ou não renovar o serviço. A velocidade do movimento ajuda a explicar por que agosto passou a ser tratado como um ponto de virada na relação entre governos locais e a tecnologia de vigilância.

## Uma sequência que começou antes

O número de agosto faz parte de uma história mais longa: o Secure Justice contabiliza **214 governos municipais** que encerraram contratos com a Flock desde 2021. Esse total reúne decisões tomadas ao longo de vários anos e mostra que a saída de administrações locais não começou com os debates mais recentes sobre privacidade. A diferença é que o levantamento de agosto registrou uma concentração incomum de cancelamentos em um único mês, colocando sob o mesmo foco contratos assinados em localidades diferentes e em momentos distintos. A tecnologia chegou a cada cidade por meio de uma decisão administrativa própria, mas a reação passou a ser observada como um movimento nacional.

Antes desse avanço mais acelerado, ao menos **30 localidades** haviam desativado câmeras ou cancelado contratos com a Flock desde o início de 2025, segundo a NPR. Entre os exemplos citados estão **Cambridge, em Massachusetts**, e Santa Cruz, na Califórnia. A maior parte dessa movimentação ocorreu no trimestre anterior a fevereiro de 2026, quando preocupações com privacidade e vigilância imigratória apareceram como os principais motivos para as decisões. Os recortes das fontes cobrem períodos diferentes, mas juntos mostram a passagem de casos isolados para uma sequência de decisões municipais acompanhada de perto por grupos de defesa e pela imprensa especializada.

## Quando uma câmera vira uma rede

A resistência cresceu porque o funcionamento da Flock depende da **interconexão entre dados de polícias e do setor privado**. Em termos simples, a administração que instala os leitores em seu território passa a lidar com uma tecnologia cuja operação está ligada a uma rede de informações que ultrapassa os limites daquela rua ou daquele município. Essa característica torna a configuração de acesso tão relevante quanto a instalação física dos equipamentos. O contrato pode ser assinado por uma prefeitura, mas a forma como os dados são conectados e pesquisados passou a fazer parte da avaliação pública sobre o serviço.

Esse é o ponto que aproxima os cancelamentos de agosto das decisões tomadas anteriormente: as preocupações citadas pelas localidades envolvem **privacidade** e vigilância relacionada à imigração. A câmera produz a leitura automática da placa, mas o debate político se desloca para o que acontece depois, quando as informações entram em uma rede compartilhada entre instituições. Para as administrações municipais, a pergunta deixou de envolver apenas a utilidade operacional do leitor e passou a incluir quais órgãos conseguem consultar os dados, em que condições e com quais limites. O caso de Mountain View tornou essa dúvida concreta ao revelar que o acesso federal ocorreu por causa de uma configuração do sistema.

## Mountain View transformou a preocupação em auditoria

A auditoria de **Mountain View**, na Califórnia, descobriu que agências federais acessaram dados locais entre agosto e novembro de 2024. Segundo a apuração publicada pelo Mercury News, o acesso ocorreu porque a Flock havia ativado uma configuração de busca nacional. A descoberta deu materialidade a uma preocupação que, em outras cidades, aparecia como receio sobre vigilância imigratória e privacidade. Em vez de discutir apenas a eficiência das câmeras, o município precisou examinar uma configuração que permitia procurar informações em escala nacional, ampliando o alcance percebido de um sistema instalado para atender a uma cidade específica.

Depois da auditoria, a cidade votou pela **rescisão do contrato** com a Flock Safety, decidiu remover as câmeras e rejeitou a adoção de uma tecnologia substituta. O conselho municipal também discutiu a recuperação de **US$ 154.650** gastos na implementação. A sequência de medidas mostra como uma falha de controle ou uma configuração de busca pode deixar de ser um detalhe técnico e se transformar em uma decisão sobre continuidade do serviço, descarte dos equipamentos e uso do orçamento público. Esse episódio passou a funcionar como uma referência concreta para compreender a dimensão dos cancelamentos registrados em agosto.

## A resposta da empresa e o próximo teste

Enquanto as administrações anunciam rescisões, a **Flock Safety** apresenta uma leitura diferente dos números. A empresa afirma que os novos contratos de parcerias com condados e municípios continuam superando as rescisões por uma margem de **10 para 1**. A Flock também declarou que está trabalhando em melhorias nos padrões de privacidade, uma resposta direta às críticas que acompanham os cancelamentos. As duas informações precisam ser lidas juntas: a empresa diz que segue ampliando sua base de contratos, ao mesmo tempo em que reconhece a necessidade de alterar os padrões usados para proteger os dados.

Para quem acompanha a história da tecnologia, o próximo passo anunciado pela **Flock** é trabalhar nessas melhorias de privacidade, enquanto os governos locais continuam avaliando se devem cancelar ou não renovar seus acordos. A sequência de agosto oferece três pontos concretos para essa leitura: o ritmo de rescisões, o alcance da rede de dados e as configurações que definem quem pode pesquisar as informações. O caso de Mountain View mostra o custo de descobrir esses limites depois da instalação; a resposta da empresa indica que os padrões de privacidade serão o próximo teste para manter a confiança das administrações que ainda consideram contratar o serviço.