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title: "Austrália propõe que usuários escolham quais algoritmos controlam seus feeds"
author: "André Iglesias"
date: "2026-09-10 06:45:00-03"
category: "Segurança & Privacidade"
url: "http://desbugados.scale.press/portal/desbugados/post/2026/09/10/australia-propoe-que-usuarios-escolham-quais-algoritmos-controlam-seus-feeds/md"
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## Resumo
- A Austrália apresentou em 8 de setembro de 2026 a proposta "My Feed, My Way".
- Usuários com mais de 16 anos poderiam escolher entre recomendações algorítmicas e publicações apenas de contas seguidas.
- A preferência seria apresentada por notificações e poderia ser alterada repetidamente.
- A proposta integra um Dever de Cuidado Digital contra pornografia, bullying, misoginia e glorificação de crimes.
- O projeto prevê multas de até 109,2 milhões de dólares australianos para empresas que descumprirem as regras.
- Menores de 18 anos teriam proteções específicas, e a rolagem infinita seria alvo de medidas para menores de 16 anos.
- A proposta está em consulta pública e deve seguir para o Parlamento australiano ainda em 2026.

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Em **8 de setembro de 2026**, o governo australiano apresentou uma proposta para devolver aos usuários parte do controle sobre os algoritmos que organizam seus feeds. Batizada de "My Feed, My Way", a iniciativa ainda está em fase de proposta, e a legislação está em consulta pública antes de chegar ao Parlamento australiano. Se avançar, pessoas com mais de 16 anos poderão escolher entre manter recomendações personalizadas ou receber apenas publicações de amigos e criadores que seguem. A mudança coloca uma pergunta simples na tela, mas mexe em uma engrenagem que decide quais conteúdos aparecem primeiro para milhões de usuários. Para entender o que realmente mudaria, é preciso separar a escolha do feed das demais regras de proteção digital previstas no pacote.

## O menu que pode mudar a lógica do feed

A primeira alternativa mantém o feed baseado em recomendações algorítmicas; a segunda reúne apenas publicações de amigos e criadores que a pessoa segue. Em termos simples, um algoritmo de recomendação é o sistema que analisa sinais de uso para selecionar e ordenar conteúdos, enquanto a segunda opção limita a seleção às contas escolhidas pelo próprio usuário. A proposta determina que as plataformas apresentem essa decisão a usuários novos e antigos por meio de notificações, em vez de esconder a configuração dentro de menus pouco acessíveis. A ministra das Comunicações, **Anika Wells**, afirmou que a preferência poderá ser alterada repetidamente, caso o usuário mude de ideia. O resultado seria uma relação mais explícita entre a configuração escolhida e aquilo que aparece na tela.

Essa possibilidade de alternância impede que a escolha seja tratada como uma decisão definitiva feita no primeiro acesso. A proposta permite que o usuário experimente uma forma de organização do conteúdo e depois retorne à outra, mantendo a decisão sob seu próprio controle. Na prática, a diferença está entre aceitar a seleção feita pelo sistema de recomendação e acompanhar publicações vindas das contas que já fazem parte da lista seguida. O governo australiano pretende transformar essa diferença técnica em uma opção compreensível para o público, sem exigir que cada pessoa conheça o funcionamento interno dos algoritmos. É justamente essa tradução de uma ferramenta invisível em uma configuração visível que dá peso à proposta **My Feed, My Way**.

## Uma escolha ligada ao Dever de Cuidado Digital

A tela de preferências faz parte de um pacote mais amplo chamado **Dever de Cuidado Digital**, que amplia as obrigações das empresas em relação aos danos causados por conteúdos e recursos online. O pacote busca responsabilizar as plataformas pela mitigação de pornografia, bullying, misoginia e glorificação de crimes. A proposta também prevê multas de até **109,2 milhões de dólares australianos** para casos de descumprimento. Isso muda a leitura da novidade, porque o governo não está tratando o feed apenas como uma ferramenta de personalização ou conveniência. A organização automática das publicações passa a ser discutida junto com a responsabilidade das empresas sobre os riscos que seus serviços podem apresentar aos usuários.

Para pessoas menores de **18 anos**, o projeto prevê exigências específicas para reduzir a exposição a transtornos alimentares, misoginia e outros conteúdos prejudiciais. O dever de cuidado também alcançaria chatbots de inteligência artificial e mecanismos de busca, ampliando a regra para além das redes sociais tradicionais. Em uma frente ainda mais específica, o texto pretende limitar recursos de design que podem prolongar o uso, como a "rolagem infinita", para usuários menores de 16 anos. A proposta, portanto, combina uma escolha individual para quem tem mais de 16 anos com proteções adicionais organizadas por faixa etária. Essa divisão cria dois caminhos regulatórios: mais controle sobre o feed para adultos e adolescentes mais velhos, e barreiras adicionais contra conteúdos e mecanismos considerados nocivos para os mais novos.

## Fiscalização, notificações e próximos passos

Enquanto a escolha do feed define o que o usuário poderá configurar, a fiscalização define o que as plataformas terão de provar às autoridades. O projeto exige que as empresas documentem as medidas usadas para identificar e reduzir riscos aos usuários australianos. O órgão regulador **eSafety** teria poderes para exigir a remoção rápida de conteúdos ilegais ou prejudiciais, criando uma obrigação de resposta além da simples publicação de regras internas. A iniciativa foi comparada ao Digital Services Act da União Europeia, que já impõe requisitos semelhantes para permitir a desativação de perfis algorítmicos. A lógica é fazer com que a plataforma explique como reduz riscos e mantenha mecanismos de intervenção quando o conteúdo ultrapassa os limites definidos pela lei.

Para quem usa as redes, a mudança mais visível seriam as **notificações** que pediriam uma decisão sobre o feed. A legislação exigirá notificações para que usuários novos e antigos escolham suas configurações, em vez de concentrar essa possibilidade em uma etapa única de cadastro. Esse detalhe transforma a preferência em uma conversa recorrente entre a plataforma e o usuário, que poderá revisar a opção quando quiser. A escolha também ajuda a separar dois desejos diferentes: descobrir conteúdos selecionados pelo sistema ou acompanhar exclusivamente as contas que a pessoa decidiu seguir. A proposta não trata essa decisão como um botão técnico escondido, mas como uma configuração que deve chegar ao usuário de maneira direta.

Essa distribuição de escolhas foi apresentada pelo primeiro-ministro **Anthony Albanese** como uma forma de devolver a decisão aos cidadãos, e não de estabelecer controle governamental sobre o que cada pessoa vê. A frase resume a disputa política em torno do projeto: o governo quer limitar danos e cobrar medidas das empresas, enquanto afirma que a seleção cotidiana do feed deve permanecer nas mãos do usuário. Anika Wells também reiterou que a preferência poderá ser modificada repetidamente, o que impede uma interpretação de escolha permanente. Na prática, o cidadão australiano teria uma ferramenta para trocar a lógica de seleção sem abandonar a plataforma. O debate deixa de ser apenas sobre quais conteúdos são recomendados e passa a incluir quem deve controlar a regra que faz essa recomendação.

O próximo passo anunciado é a continuidade da **consulta pública**, seguida da apresentação do projeto ao Parlamento ainda em 2026. Até que esse processo avance, as regras descritas permanecem uma proposta, e não uma obrigação já aplicada às plataformas ou aos usuários. Se o texto for aprovado, as empresas terão de preparar notificações, registrar medidas de redução de riscos e atender às exigências do eSafety, enquanto os usuários poderão escolher e revisar a forma como seus feeds são organizados. Para acompanhar a mudança sem confundir anúncio com lei, a referência prática é observar três pontos: a tramitação parlamentar, o formato final das notificações e quais faixas etárias receberão cada proteção. A Austrália, agora, está testando uma ideia que pode redefinir o feed como uma configuração pública e revisável, em vez de um padrão automático aceito sem explicação.