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title: "Alice and Bob e CEA unem forças para criar software de supercomputação quântica"
author: "Lígia Lemos Maia"
date: "2026-09-18 07:00:00-03"
category: "Tecnologia & Desenvolvimento"
url: "http://desbugados.scale.press/portal/desbugados/post/2026/09/18/alice-and-bob-e-cea-unem-forcas-para-criar-software-de-supercomputacao-quantica/md"
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## Resumo
- Alice & Bob e CEA formalizaram uma colaboração em setembro de 2026 para integrar computação quântica e supercomputação de alto desempenho.
- A plataforma Qaptiva será usada para conectar computadores quânticos a supercomputadores tradicionais e facilitar o acesso a sistemas tolerantes a falhas.
- A França adquiriu um computador quântico de 18 cat-qubits, financiado pelo plano France 2030.
- O sistema será instalado no centro TGCC da CEA e deverá estar disponível a pesquisadores em 2027.
- A máquina será integrada primeiro ao supercomputador Joliot-Curie e depois ao supercomputador europeu Alice Recoque.
- O projeto inclui pesquisas em matéria condensada, física de muitos corpos e ciência dos materiais.
- A meta é executar algoritmos em sistemas quânticos tolerantes a falhas no horizonte de 2030.

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Em setembro de 2026, a **Alice & Bob** e a **CEA**, Comissão de Energia Atômica da França, formalizaram uma colaboração para integrar processadores quânticos baseados em cat-qubits a ambientes de computação de alto desempenho, conhecidos pela sigla HPC. O objetivo central é desenvolver uma infraestrutura de software usando a plataforma Qaptiva, conectando computadores quânticos a supercomputadores tradicionais e permitindo acesso contínuo a sistemas de computação quântica tolerante a falhas, ou FTQC. A proposta, detalhada nesta [colaboração anunciada pelas empresas](https://thequantuminsider.com/2026/09/17/alice-bob-partners-with-the-cea-to-accelerate-quantum-hpc-integration-and-industrial-use-cases/), desloca a discussão do laboratório para a rotina de pesquisa: como fazer uma máquina quântica conversar com a infraestrutura que cientistas e indústrias já utilizam?

## O software como ponte entre dois tipos de computador

É nessa camada de conexão que a parceria concentra sua primeira resposta. A **Alice & Bob** terá seu software integrado à plataforma **Qaptiva**, enquanto a CEA busca remover fricções na adoção industrial e oferecer acesso contínuo a sistemas FTQC. HPC significa computação de alto desempenho, área que reúne supercomputadores capazes de executar grandes volumes de cálculos para pesquisas e simulações. Na prática, o projeto pretende fazer com que recursos quânticos sejam acessados dentro de uma estrutura de supercomputação já organizada, em vez de permanecerem isolados como equipamentos difíceis de alcançar. Essa escolha coloca a experiência de uso no centro da computação quântica e prepara o caminho para o hardware que será instalado na França.

Essa arquitetura também carrega uma dimensão de autonomia tecnológica. A **Qaptiva** é apresentada como uma alternativa europeia ao CUDA-Q, plataforma da **Nvidia** voltada à programação de sistemas quânticos. O objetivo declarado não é apenas colocar um novo computador em funcionamento, mas criar uma forma própria de organizar o acesso, a emulação e a execução de tarefas quânticas dentro de centros de supercomputação. Para pesquisadores, isso significa que a ferramenta de software passa a ser parte da infraestrutura científica, como uma ponte invisível entre códigos, processadores e supercomputadores. Antes de perguntar o que um computador quântico fará, portanto, a parceria enfrenta uma questão mais básica: como torná-lo utilizável?

## O computador de 18 cat-qubits já tem destino

A camada de software ganha um endereço concreto com a aquisição formalizada pela França de um computador quântico de **18 cat-qubits**, financiado pelo plano **France 2030**. O sistema será instalado no centro TGCC da CEA, em Bruyères-le-Châtel, e corresponde ao primeiro computador quântico comercial da Alice & Bob destinado à instituição. A escolha do local aproxima o equipamento de uma infraestrutura criada para pesquisas de alto desempenho, exatamente o ambiente que a nova colaboração pretende conectar às máquinas quânticas. O anúncio deixa de tratar a integração como uma hipótese distante e passa a associá-la a um equipamento, um centro de pesquisa e um cronograma definido.

Esse destino ajuda a entender o que há por trás do nome **cat-qubit**. A tecnologia foi projetada para suprimir erros de bit-flip, um tipo de falha em que o estado de um qubit troca de valor durante o processamento. No sistema Helium da Alice & Bob, **18 cat-qubits** são usados para formar um qubit lógico, isto é, uma unidade de informação criada para operar de maneira mais protegida contra erros. A ideia não elimina todos os desafios da computação quântica, mas ataca uma das dificuldades que impedem algoritmos mais longos e confiáveis. É justamente por isso que a conversa sobre o equipamento se conecta ao software: corrigir erros no hardware só produz valor quando pesquisadores conseguem programar, testar e executar seus experimentos.

## Do acesso científico aos testes em materiais

Com o equipamento destinado ao TGCC, o calendário de acesso também foi definido. A previsão é que o sistema esteja disponível a pesquisadores em **2027**, primeiro integrado ao supercomputador **Joliot-Curie**, da GENCI, e depois ao supercomputador europeu Alice Recoque. O acesso será gratuito para pesquisadores acadêmicos e industriais em ciência aberta, o que amplia a possibilidade de testar algoritmos sem restringir o uso a uma única organização. A futura conexão com Alice Recoque também aparece no esforço francês para aproximar computação quântica e supercomputação, tema explicado em detalhes na reportagem do [Desbugados sobre o supercomputador europeu](https://desbugados.com.br/post/2025/11/30/franca-entra-na-briga-dos-supercomputadores-com-alice-recoque-a-nova-monstra-exascale-movida-a-amd). O próximo passo, então, será transformar a disponibilidade prometida em uma rotina de pesquisa acessível.

Esse calendário dá sentido ao programa de pesquisa lançado pela **CEA** e pela **Alice & Bob**. A iniciativa conjunta vai abordar problemas de física da matéria condensada, área que estuda as propriedades de materiais e sistemas formados por muitas partículas, além de questões de física de muitos corpos e de ciência dos materiais. Esses temas servem como campo de prova para algoritmos quânticos porque exigem representar interações complexas que desafiam métodos tradicionais. A parceria não apresenta um produto pronto para uso geral; ela organiza um espaço de experimentação com problemas definidos, hardware identificado e uma plataforma de software em preparação. É nesse encontro entre pergunta científica e ferramenta computacional que a promessa de utilidade começa a ser medida.

## O papel da Bull e a busca por uma operação mais simples

Para transformar a integração em uma operação concreta, a **Bull**, empresa do grupo Eviden, foi selecionada como integradora de software do primeiro sistema quântico comercial da Alice & Bob destinado ao TGCC. O acordo entre as duas empresas inclui pesquisa e desenvolvimento em física de materiais, inovação de produto e containerização de sistemas quânticos. Containerização significa empacotar um software e seus componentes em um formato que facilita sua execução em diferentes ambientes de infraestrutura. A Qaptiva também será ampliada para permitir a emulação e a execução em chips de cat-qubits. Assim, o projeto tenta aproximar as duas etapas que costumam ficar separadas: experimentar o comportamento de uma máquina e executar o algoritmo no processador real.

Essa parte operacional é menos cinematográfica do que a imagem de um computador quântico, mas afeta diretamente quem precisará trabalhar com ele. A **emulação** permite testar o comportamento de um sistema em software, enquanto a execução leva o programa ao chip quântico disponível. Ao colocar as duas possibilidades dentro da Qaptiva, a colaboração procura reduzir a distância entre uma ideia escrita por pesquisadores e um teste realizado na máquina instalada no TGCC. A participação da Bull acrescenta uma camada de integração ao projeto, porque a tarefa deixa de depender apenas da fabricação do processador e passa a envolver também a forma como usuários acessam os recursos. O resultado esperado é uma infraestrutura em que hardware, software e supercomputação possam operar como partes do mesmo percurso científico.

## Por que 2030 aparece como prazo de referência

O horizonte de **2030** aparece como a meta para executar algoritmos em sistemas quânticos tolerantes a falhas. A expressão FTQC descreve uma etapa em que o computador consegue lidar com erros de maneira suficientemente organizada para sustentar cálculos mais extensos, em vez de produzir resultados frágeis após poucas operações. As fontes apresentam esse prazo como objetivo do programa conjunto, associado ao amadurecimento dos algoritmos e ao estudo de problemas de matéria condensada. O número não descreve uma garantia de que toda aplicação científica estará resolvida nessa data; ele funciona como uma referência para medir se a integração entre software, hardware e supercomputação está avançando.

Esse prazo também muda a maneira de observar a notícia. O marco mais imediato é a instalação do sistema no **TGCC em 2027**, seguida pelo acesso de pesquisadores acadêmicos e industriais em ciência aberta. Depois vêm os testes em materiais, a emulação, a execução em chips de cat-qubits e a integração progressiva com supercomputadores. Cada etapa responde a uma pergunta diferente: o equipamento pode ser instalado, os usuários conseguem acessá-lo, os algoritmos funcionam e os resultados justificam a continuidade da pesquisa? Ao reunir essas perguntas em uma mesma infraestrutura, França, CEA e Alice & Bob criam uma sequência verificável para avaliar a computação quântica tolerante a falhas, sem depender apenas de promessas abstratas.

## O próximo passo é fazer a promessa funcionar

O próximo passo anunciado é instalar o computador quântico de **18 cat-qubits** no centro da CEA em 2027 e conectá-lo primeiro ao **Joliot-Curie**, antes de uma integração posterior com Alice Recoque. Até lá, a parceria precisa transformar a integração do software da Alice & Bob na Qaptiva em uma ferramenta utilizável por pesquisadores, enquanto a Bull trabalha na emulação, na execução e na containerização dos sistemas. O valor da iniciativa será medido nessa passagem entre a arquitetura descrita nos anúncios e o experimento que alguém consegue executar, repetir e analisar. A computação quântica deixa de ser apresentada apenas como uma máquina distante quando ganha um endereço, uma plataforma de acesso e usuários previstos.

É nesse ponto que a colaboração encontra seu sentido mais amplo. A **CEA** e a **Alice & Bob** não anunciaram somente um novo processador, mas uma tentativa de organizar a estrada que leva pesquisadores até ele, com software, supercomputadores tradicionais e problemas concretos de materiais. O programa mira algoritmos tolerantes a falhas no horizonte de 2030, enquanto a primeira demonstração prática deverá ocorrer com o sistema disponível em 2027. Para quem acompanha a área, esses são os marcos a observar: a instalação no TGCC, o acesso aberto, a integração com Joliot-Curie e Alice Recoque e os resultados dos testes científicos. A pergunta deixou de ser quando a computação quântica chegará e passou a ser como ela será incorporada ao trabalho que já acontece nos centros de pesquisa.