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title: "Seguradoras dizem que a inteligência artificial já está encarecendo o atendimento de saúde"
author: "Lígia Lemos Maia"
date: "2026-09-29 11:00:00-03"
category: "Inteligência Artificial & Dados"
url: "http://desbugados.scale.press/portal/desbugados/post/2026/09/29/seguradoras-dizem-que-a-inteligencia-artificial-ja-esta-encarecendo-o-atendimento-de-saude/md"
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## Resumo
- A BCBSA atribui US$ 942 milhões em gastos adicionais ao uso de IA na codificação médica hospitalar entre 2024 e 2025.
- US$ 653 milhões do total foram associados a diagnósticos secundários registrados com mais frequência.
- As ferramentas analisam registros eletrônicos de saúde e podem identificar diagnósticos a partir de valores laboratoriais individuais.
- Mais de 60% dos sistemas hospitalares estariam usando ferramentas de IA desse tipo, segundo a descrição do estudo.
- A BCBSA afirma que os registros ficaram mais complexos sem mudança correspondente no tratamento oferecido.
- Hospitais contestam a conclusão e apontam que a proporção de internações complexas subiu de 37% para 40%.
- O aumento das despesas pode ser repassado a empregadores e pacientes por meio de prêmios de planos de saúde mais altos.

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Uma análise da **Blue Cross Blue Shield Association (BCBSA)**, divulgada em setembro de 2026, atribui **US$ 942 milhões** em gastos adicionais de saúde ao uso de ferramentas de inteligência artificial para codificação médica e faturamento hospitalar entre 2024 e 2025. A alegação coloca a tecnologia em um lugar menos futurista e mais cotidiano: o sistema que lê prontuários, identifica condições clínicas e ajuda a definir quanto será cobrado por uma internação. Para a entidade que reúne operadoras Blue Cross Blue Shield, a documentação dos pacientes passou a indicar maior complexidade sem uma mudança correspondente no cuidado entregue. Hospitais discordam dessa interpretação e dizem que os quadros clínicos realmente se tornaram mais complexos. A disputa, portanto, envolve tanto o preço de uma conta quanto a maneira como a inteligência artificial traduz a experiência de uma pessoa doente em códigos de faturamento.

## O número que abriu a disputa

O valor de **US$ 942 milhões** aparece como o resultado central da análise da BCBSA sobre as despesas registradas pelas operadoras nos dois anos estudados. A entidade atribui esse aumento ao uso de inteligência artificial em processos de codificação médica, atividade que transforma informações dos registros hospitalares em códigos usados para calcular o pagamento de uma internação. A reportagem da [Reuters sobre o estudo](https://www.reuters.com/legal/litigation/ai-tools-generated-nearly-1-billion-extra-costs-blue-cross-insurers-say-2026-09-24/) descreve a cifra como um custo adicional próximo de US$ 1 bilhão e situa a divulgação da análise em setembro de 2026. O ponto de tensão está na origem desse dinheiro: para as seguradoras, parte da elevação veio de registros mais intensos, e não de uma mudança proporcional no tratamento, questão que aparece com mais clareza quando o total é dividido por tipo de diagnóstico.

Dentro desse total, **US$ 653 milhões** foram associados especificamente à codificação de diagnósticos secundários, que são condições adicionais registradas junto ao problema principal que levou o paciente ao hospital. A análise indica que, entre 2024 e 2025, os hospitais passaram a faturar com mais frequência por essas condições secundárias. Na prática, a inclusão de uma informação complementar pode deslocar a internação para uma categoria de reembolso mais alta, ou seja, uma faixa que prevê pagamento maior à instituição. A BCBSA apresenta esse movimento como o principal componente do aumento identificado, enquanto os hospitais questionam se a maior presença desses códigos significa exagero na cobrança ou apenas uma descrição mais completa de pacientes que já chegavam mais doentes. É nessa diferença entre registrar mais e tratar mais que a discussão financeira se transforma em uma discussão sobre confiança.

## Como a inteligência artificial entra na conta

A mecânica descrita pelas fontes começa quando a **IA examina registros eletrônicos de saúde** em busca de informações que possam ser convertidas em diagnósticos faturáveis. Segundo a descrição do estudo, um único valor laboratorial pode levar a ferramenta a identificar um diagnóstico secundário, e essa identificação é suficiente para deslocar a fatura para categorias de reembolso mais altas. O processo não depende necessariamente de uma nova intervenção médica: ele atua na camada administrativa que organiza a conta depois ou durante o atendimento. Essa distinção ajuda a entender o motivo da controvérsia, porque uma alteração na documentação pode produzir efeito financeiro mesmo quando o relatório da BCBSA não encontra mudança equivalente no cuidado prestado. A tecnologia, nesse caso, não aparece como uma máquina que realiza o tratamento, mas como um filtro que decide quais detalhes do prontuário ganham peso na cobrança.

O alcance dessa prática também foi apresentado como amplo. Mais de **60% dos sistemas hospitalares** estariam utilizando ferramentas de IA que examinam registros eletrônicos de saúde, de acordo com a descrição do estudo da BCBSA. A análise usou reivindicações anonimizadas de membros das operadoras, conjunto de dados que cobre **um em cada três americanos**. Reivindicações são os pedidos de pagamento enviados aos planos de saúde depois de um atendimento, e a anonimização remove elementos capazes de identificar diretamente os pacientes. Esses dados permitem comparar padrões de faturamento em grande escala, mas a interpretação continua sendo o centro da disputa: a BCBSA enxerga uma codificação mais agressiva, enquanto representantes hospitalares associam os números a mudanças reais no perfil clínico das internações. O tamanho da amostra dá peso à acusação, mas não encerra o debate sobre a causa de cada registro.

## O ponto de ruptura entre seguradoras e hospitais

Para a **BCBSA**, existe uma desconexão entre os diagnósticos registrados e o tratamento efetivamente entregue. A entidade afirma que a inteligência artificial identifica condições faturáveis nos prontuários sem que haja uma alteração correspondente no cuidado recebido pelos pacientes. Essa afirmação não descreve uma nova terapia nem uma melhora no diagnóstico, mas um uso administrativo da tecnologia para ampliar a quantidade ou a intensidade dos códigos associados a uma internação. Em termos simples, a acusação é que o prontuário passou a contar uma história clínica mais cara do que aquela observada na prática hospitalar. A tese das seguradoras depende justamente dessa comparação entre a linguagem dos registros e os procedimentos realizados, e é por isso que a contestação dos hospitais se concentra na própria definição de complexidade.

Os hospitais respondem que os pacientes estão, de fato, chegando em condições mais graves e exigindo registros que capturem essa realidade. O relatório citado nas fontes aponta que a proporção de casos complexos em internações subiu de **37% no início de 2023 para 40% no fim de 2025**. Para as instituições, essa alta ajuda a explicar por que diagnósticos secundários aparecem com mais frequência nas contas e não pode ser reduzida automaticamente a uma tentativa de aumentar o reembolso. A discussão, portanto, não opõe simplesmente seres humanos e máquinas: ela envolve duas leituras sobre os mesmos dados, uma que identifica o comportamento das ferramentas de codificação e outra que identifica uma deterioração real na saúde dos pacientes atendidos. Enquanto a BCBSA questiona a correspondência entre registro e cuidado, os hospitais defendem a correspondência entre registro e doença.

## Quem pode absorver a diferença

Se as despesas das operadoras aumentam, o custo não necessariamente permanece dentro das empresas que administram os planos. A reportagem do [Healthcare Dive sobre o impacto das ferramentas de faturamento](https://www.healthcaredive.com/news/insurers-say-ai-could-add-billions-in-health-costs-billing-companies-disag/831497/) afirma que a elevação pode ser repassada a empregadores e pacientes por meio de **prêmios de seguro de saúde mais altos**. Prêmio é o valor pago para manter a cobertura do plano, seja diretamente pelo paciente, seja com participação do empregador. A consequência descrita pelas fontes transforma um procedimento invisível para quem está no leito em uma possível despesa visível no contrato ou no orçamento familiar. O paciente pode não saber qual código foi incluído na conta, mas pode encontrar o efeito dessa codificação no preço da cobertura que paga ou recebe como benefício.

Essa cadeia ajuda a explicar por que o debate sobre uma ferramenta administrativa ganhou dimensão financeira. A discussão começa no prontuário, passa pela classificação da internação e chega ao valor desembolsado pelas operadoras, mas a última etapa pode alcançar **empregadores e pacientes finais**. As fontes não descrevem uma cobrança individual específica nem atribuem cada aumento de prêmio a uma única ferramenta; elas apresentam um efeito de repasse associado à elevação das despesas com faturamento baseado em IA. Essa cautela importa porque o número de US$ 942 milhões é uma estimativa agregada da análise da BCBSA, não uma conta enviada igualmente a cada pessoa coberta. Ainda assim, o caminho apontado pelas reportagens é direto: quando uma codificação mais intensa aumenta o reembolso, a pressão financeira pode reaparecer no preço coletivo da cobertura.

## O que está em disputa agora

Os dados disponíveis sustentam três afirmações diferentes, e separá-las evita que a notícia seja reduzida a uma promessa ou a uma condenação genérica da tecnologia. A primeira é quantitativa: a BCBSA identificou **US$ 942 milhões** em custos adicionais entre 2024 e 2025. A segunda diz respeito à composição: **US$ 653 milhões** foram associados a diagnósticos secundários. A terceira é interpretativa: a entidade afirma que a documentação ficou mais complexa sem mudança proporcional no tratamento, enquanto os hospitais dizem que a complexidade clínica aumentou de verdade. O leitor precisa manter essas camadas juntas, mas não misturá-las, porque o valor calculado, o mecanismo de codificação e a explicação para o aumento pertencem a perguntas diferentes. É justamente nessa separação que a controvérsia pode ser compreendida sem transformar uma alegação setorial em consenso médico.

Por enquanto, o efeito concreto apontado pelas fontes está na possibilidade de **prêmios de saúde mais caros** para empregadores e pacientes, enquanto a disputa sobre a origem do aumento continua entre seguradoras e hospitais. A BCBSA vê a inteligência artificial como uma ferramenta que encontra diagnósticos adicionais e amplia categorias de reembolso; as instituições hospitalares afirmam que os mesmos registros acompanham pacientes realmente mais doentes. A pergunta que permanece não é se a IA entrou na burocracia da saúde, porque os dados apresentados indicam que ela já está sendo usada nessa etapa, mas como seus códigos devem ser auditados para que a conta corresponda ao cuidado e à condição clínica documentada. Até que essa divergência seja resolvida, o número de US$ 942 milhões funciona como um aviso concreto sobre quem pode pagar quando uma decisão automatizada altera a linguagem de uma internação.