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title: "Navitas e Microchip levam energia de 800 V para data centers de IA"
author: "Ignácio Afonso"
date: "2026-10-07 08:00:00-03"
category: "Inteligência Artificial & Dados"
url: "http://desbugados.scale.press/portal/desbugados/post/2026/10/07/navitas-e-microchip-levam-energia-de-800-v-para-data-centers-de-ia/md"
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## Resumo
- Navitas e Microchip anunciaram um design de referência que converte 800 V DC em 6 V DC para data centers de IA.
- A solução combina controladores dsPIC33AK, 16 FETs GaNFast NV6034 de 650 V e uma topologia de meia ponte empilhada.
- O projeto promete eficiência de pico de até 96% em plena carga, frequência de 1 MHz e densidade de potência de 2.100 W/in³.
- O conversor reúne em uma única solução os estágios tradicionais de 800 V para 50 V e de 50 V para 6 V.
- O dispositivo TA100 acrescenta root-of-trust, secure boot, gestão de chaves e suporte ao CNSA Suite 2.0.
- A arquitetura foi desenvolvida para o padrão 800V DC do OCP e para clusters de GPUs de alta potência.
- A colaboração inclui hardware, software e documentação para reduzir riscos de design e encurtar ciclos de desenvolvimento.

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Em **5 de outubro de 2026**, a **Navitas Semiconductor** e a **Microchip Technology** anunciaram uma colaboração para levar uma arquitetura de energia de **800 V DC para 6 V DC** aos data centers de inteligência artificial. O projeto de referência combina controle digital, dispositivos de nitreto de gálio e segurança baseada em hardware em uma solução voltada ao padrão do Open Compute Project, conhecido pela sigla OCP. A notícia parece falar de componentes escondidos atrás dos racks, mas é justamente nessa camada invisível que a expansão dos clusters de GPUs encontra um dos seus limites mais concretos: transformar alta tensão em energia utilizável com eficiência, densidade e proteção. Neste artigo, vamos desbugar como esse conversor foi montado, o que os números significam e por que a alimentação elétrica passou a acompanhar a conversa sobre computação de IA.

## A mudança começa antes da GPU

A arquitetura proposta pelas duas empresas parte de uma alteração direta na forma de distribuir energia dentro do data center. Em vez de tratar separadamente os estágios de conversão de **800 V para 50 V** e de **50 V para 6 V**, o design reúne as duas etapas em um único conversor. DC significa corrente contínua, o tipo de alimentação indicado na própria especificação do projeto, e a faixa de 800 V foi escolhida para atender ao padrão 800V DC do OCP. Na prática, a solução coloca a conversão de alta tensão mais perto do ponto em que a energia chega à placa da GPU, uma decisão que conecta a infraestrutura elétrica à capacidade de processamento que o rack precisa entregar.

Essa proximidade aparece também no formato físico. Segundo as informações divulgadas sobre o design, a baixa espessura do conversor permite sua integração extremamente próxima à **placa da GPU**, com impacto no desempenho transitório e na eficiência da distribuição de energia. Desempenho transitório é a capacidade de responder às variações rápidas de demanda de energia, um aspecto diretamente relacionado à operação de sistemas de processamento de alta potência. A proposta, portanto, não fica restrita a uma conversão eficiente no papel: ela trata também do espaço ocupado dentro do rack e da distância entre o circuito de alimentação e o componente que recebe a energia. É a velha história da tomada, só que com uma conta de luz que não cabe atrás do sofá.

## O conversor em detalhes

O núcleo elétrico do design usa controladores de sinal digital **dsPIC33AK**, fornecidos pela Microchip, junto de **16 FETs GaNFast NV6034 de 650 V**, da Navitas. FET é o tipo de dispositivo utilizado para chavear a energia dentro do circuito, enquanto GaN identifica o nitreto de gálio usado nos componentes da família GaNFast. Esses elementos foram organizados em uma topologia de meia ponte empilhada, configuração que aparece na descrição técnica do projeto de referência. A combinação procura atender às necessidades de clusters de GPUs de alta potência, mantendo em uma mesma plataforma o controle digital da Microchip e a etapa de chaveamento baseada em GaN da Navitas.

Os números apresentados ajudam a dimensionar o que as empresas estão tentando alcançar. O projeto promete **eficiência de pico de até 96% em plena carga**, opera com frequência de comutação de **1 MHz** e alcança densidade de potência de **2.100 W/in³**. Eficiência, neste caso, indica quanto da energia de entrada permanece disponível na saída em vez de ser perdida durante a conversão; densidade de potência relaciona a quantidade de energia processada ao volume ocupado pelo equipamento. Uma frequência de comutação elevada e um conversor compacto podem ser relevantes para racks em que espaço e dissipação de energia disputam cada centímetro, embora a notícia não transforme esses números em uma promessa de desempenho igual para qualquer instalação.

## Controle digital para uma carga que varia

Além dos dispositivos de potência, o **dsPIC33AK** funciona como parte central do controle da solução. A Microchip descreve o componente com um processador de **32 bits a 200 MHz**, unidade de ponto flutuante de precisão dupla e periféricos PWM de alta resolução, com resolução de **78 ps**. PWM é a técnica usada para controlar a energia por meio de pulsos elétricos ajustados em alta velocidade. No design de referência, esses recursos aparecem associados ao gerenciamento digital do conversor, permitindo que o comportamento elétrico seja definido por controle programável em vez de depender apenas de circuitos fixos.

Essa camada de controle é relevante porque o design foi concebido para trabalhar com cargas ligadas a **clusters de GPUs de alta potência**. O material técnico não apresenta uma medição de desempenho para cada modelo de GPU ou para cada rack, mas deixa claro que a solução foi direcionada à infraestrutura de IA que precisa distribuir energia em alta tensão e entregá-la em uma saída de 6 V. O resultado é uma arquitetura de referência que oferece aos desenvolvedores uma base comum para avaliar controle, potência e integração física antes de criar uma implementação própria. Em sistemas críticos, uma base documentada costuma ser mais útil do que uma promessa grandiosa, especialmente quando a promessa precisa sobreviver ao primeiro teste de carga.

## Segurança entra no circuito de energia

A colaboração também coloca segurança dentro da própria arquitetura elétrica. O design integra o dispositivo **TA100 CryptoAuthentication**, da Microchip, para fornecer segurança baseada em hardware e suporte ao **CNSA Suite 2.0**, conjunto que inclui algoritmos de criptografia pós-quântica. A solução acrescenta autenticação de código, conhecida como secure boot, e gestão de chaves. Secure boot é o mecanismo que verifica o código usado na inicialização antes de permitir sua execução, enquanto a gestão de chaves organiza os elementos criptográficos usados para autenticar o sistema.

Na prática, a presença do TA100 permite que os desenvolvedores estabeleçam uma base confiável, ou **root-of-trust**, para autenticar o sistema sem precisar construir todas as medidas de segurança desde o início. A expressão root-of-trust descreve o ponto inicial de confiança usado para verificar componentes e códigos posteriores. A fonte também associa essa escolha à conformidade com padrões de criptografia pós-quântica, área voltada a algoritmos projetados para manter proteção diante de futuras ameaças baseadas em computadores quânticos. O ponto mais interessante está na integração: a energia que alimenta a GPU e o código que controla essa energia passam a ser tratados dentro de uma mesma proposta de referência.

## O padrão OCP e a escala dos racks

O design foi criado para atender ao padrão **800V DC do Open Compute Project**, organização que aparece nas fontes como referência para a arquitetura de alimentação dos data centers de IA. O objetivo declarado é combinar maior eficiência, maior densidade de potência e conformidade com as demandas de clusters de GPUs de alta potência. Essa combinação ajuda a entender por que a conversão de energia ganhou espaço nas discussões sobre infraestrutura: a placa de processamento pode ser o elemento mais visível, mas ela depende de uma cadeia elétrica capaz de entregar tensão adequada, ocupar pouco volume e responder às mudanças de consumo.

A mesma direção aparece em outra demonstração citada pela Microchip. Durante o **OCP Global Summit**, a empresa também destacou um conversor de **800 V para 12 V** voltado a racks de data centers de grande escala, com referência a instalações de **1 MW**. Megawatt é uma unidade de potência equivalente a um milhão de watts, e a menção mostra que a proposta não foi apresentada como uma peça isolada para uma bancada de laboratório. Ela integra uma família de soluções que tenta responder a diferentes níveis de distribuição elétrica em instalações de grande porte, enquanto o design de 800 V para 6 V mira a alimentação próxima à GPU.

## Da demonstração à implementação

A Microchip informou que as demonstrações do conversor de **800 V para 6 V** foram programadas para o Hilton San Jose durante o OCP Global Summit, realizado em San Jose, na Califórnia, entre **12 e 15 de outubro de 2026**. A apresentação serviu para colocar diante de desenvolvedores a combinação entre hardware de potência, controle digital e segurança. Mais do que uma vitrine, uma demonstração desse tipo permite observar como os diferentes blocos são reunidos em uma arquitetura única, especialmente quando o objetivo é aproximar o conversor da placa que processa a carga de IA.

O material divulgado também posiciona o projeto como uma forma de reduzir riscos de design e encurtar ciclos de desenvolvimento. Para os desenvolvedores, isso significa receber uma referência que inclui **hardware, software e documentação**, em vez de começar a implementação a partir de uma folha em branco. A proposta não elimina a necessidade de validação elétrica, térmica e de segurança em cada produto, mas fornece componentes e caminhos técnicos já descritos pelas empresas. A cobertura técnica da colaboração mostra, assim, que o debate sobre data centers de IA chegou a uma camada menos glamourosa e bastante decisiva: a engenharia que transforma energia de alta tensão em alimentação confiável para cada placa.

## O próximo passo para os desenvolvedores

O próximo passo anunciado é a adoção técnica da referência por equipes que precisam projetar sistemas de energia compatíveis com a distribuição de **800 V DC**. A combinação do dsPIC33AK, dos 16 FETs GaNFast e do TA100 oferece uma base definida para avaliar conversão, controle e autenticação dentro do mesmo projeto. A documentação e o software associados podem ajudar essas equipes a comparar a arquitetura com os requisitos de seus próprios racks, enquanto os números de eficiência e densidade servem como pontos de partida para a validação, não como resultado automático em qualquer instalação.

O fio condutor da parceria é direto: uma infraestrutura de IA exige mais do que processadores rápidos, porque cada aumento de potência também pressiona a distribuição elétrica e a proteção do sistema. A Navitas e a Microchip responderam a esse problema com um design de referência de **800 V DC para 6 V DC**, eficiência de pico de até 96%, densidade de 2.100 W/in³ e segurança baseada em hardware. Ao aproximar a conversão da GPU e entregar uma base com hardware, software e documentação, o projeto transforma uma parte invisível do data center em uma etapa que pode ser medida, comparada e modernizada.